Saab amplia sua presença no espaço. Uma oportunidade para o Brasil?

A empresa sueca Saab quer ampliar sua atuação no setor espacial e assumir um papel mais abrangente como integradora de sistemas, conectando capacidades espaciais às operações militares nos domínios aéreo, terrestre, marítimo e cibernético. O movimento, anunciado em 24 de setembro, representa mais do que uma simples diversificação de negócios: indica que a Saab pretende levar para o espaço uma competência que já ocupa posição central em seu portfólio de defesa.

Segundo comunicado divulgado pela própria Saab em 24 de setembro, foram assinados memorandos de entendimento com SSC Space, OHB Sweden e Ericsson para explorar conjuntamente tecnologias voltadas às futuras operações multidomínio apoiadas por capacidades espaciais.

Cada parceria cobre uma parte relevante dessa futura arquitetura. Com a SSC Space, a Saab pretende explorar a integração de suas competências com redes de estações terrestres, engenharia de missão, serviços de plataformas de grande altitude e infraestrutura de lançamento orbital, incluindo o Esrange Space Center, no norte da Suécia. A cooperação com a OHB Sweden envolve sistemas e plataformas satelitais, enquanto a parceria com a Ericsson deverá estudar a integração entre comunicações terrestres e espaciais.

O movimento chama a atenção porque revela uma visão na qual o espaço deixa de ser tratado como um segmento relativamente isolado. Comunicações, navegação, vigilância e alerta antecipado dependem crescentemente de ativos espaciais e, na visão apresentada pela Saab, essas capacidades deverão ser integradas às soluções utilizadas nos demais ambientes operacionais.

A empresa começa, portanto, a se posicionar para desempenhar também o papel de integradora de futuras arquiteturas militares multidomínio.

Do Gripen ao espaço: uma oportunidade?

Para o Brasil, entretanto, a notícia permite uma reflexão honesta.

Brasil e Suécia já construíram, por meio do Programa F-X2/Gripen, uma parceria de longo prazo envolvendo governos, Forças Armadas, indústria, transferência de tecnologia, desenvolvimento tecnológico e formação de competências nacionais. Isso suscita uma questão interessante: se essa cooperação alcançou tal profundidade no domínio aéreo, poderia ela futuramente ser ampliada também para o domínio espacial?

Fato é que o Brasil possui ativos que tornam a hipótese digna de análise. Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), localizado próximo à Linha do Equador, possui instalações destinadas a atividades de lançamento e rastreio de engenhos aeroespaciais, coleta e processamento de dados de cargas úteis, testes e experimentos.

O Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), no Rio Grande do Norte, por sua vez, possui competências em lançamento, rastreamento, telemetria e apoio a missões espaciais, mantendo inclusive histórico de cooperação internacional.

Há, inclusive, experiência concreta de atuação integrada entre os dois centros. Em 2018, durante o lançamento do foguete suborbital VS-30/V14 a partir de Alcântara, o CLBI foi empregado como estação remota de rastreamento, conforme registrado pela AEB na Operação MUTITI.

Não existe, até o momento, indicação pública de que Saab ou seus novos parceiros estejam considerando o emprego dessas instalações brasileiras. A questão relevante, portanto, não é apresentar uma iniciativa inexistente, mas perguntar se o relacionamento estratégico construído em torno do Gripen poderia servir como ponto de partida para uma cooperação espacial mais ampla entre Brasil e Suécia.

Esrange, Alcântara e Barreira do Inferno possuem características geográficas e operacionais distintas. Uma eventual cooperação poderia explorar complementaridades em áreas como infraestrutura de lançamento, rastreamento, estações terrestres, comunicações, pequenos satélites, sensoriamento e integração de sistemas.

O Gripen mostrou que Brasil e Suécia podem construir uma relação industrial e tecnológica de longo prazo em um setor sensível da defesa. Talvez seja oportuno começar a perguntar: o próximo capítulo dessa parceria poderia ser escrito também no espaço?



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