O capital de risco destinado a empresas europeias de tecnologia de defesa caminha para um novo recorde. Segundo o relatório The State of Defence Tech 2026, publicado pela Dealroom em parceria com a Resilience Media, startups europeias do setor já captaram US$ 7,4 bilhões em venture capital em 2026, e a projeção é de que esse volume possa alcançar US$ 10,5 bilhões até o final do ano.
O salto é expressivo. Em todo o ano de 2025, as empresas europeias de defence tech haviam levantado cerca de US$ 2,6 bilhões. Caso a projeção para 2026 se confirme, o volume anual terá praticamente quadruplicado em apenas um ano.
Mais relevante do que o valor absoluto talvez seja o espaço que defesa passou a ocupar dentro do próprio mercado europeu de venture capital. Segundo a Dealroom, o setor representa atualmente 11,1% dos investimentos de VC realizados na Europa, percentual que chega a 15% quando considerados apenas os 27 países da União Europeia. Antes de 2021, essa participação era inferior a 1%.
O movimento também revela claramente para onde parte significativa do capital está sendo direcionada. Empresas europeias de drones captaram aproximadamente US$ 4,7 bilhões em 40 rodadas de investimento em 2026. Tecnologias contra drones receberam outros US$ 1,2 bilhão, enquanto sistemas autônomos marítimos atraíram cerca de US$ 800 milhões.
Algumas grandes operações ajudam a explicar o salto. A alemã Helsing levantou US$ 1,8 bilhão em uma rodada Série E, enquanto a também alemã Quantum Systems captou US$ 1,2 bilhão. A Alemanha, impulsionada principalmente por essas empresas, lidera atualmente o mercado europeu, com aproximadamente US$ 3,5 bilhões captados por startups de defesa em 2026.
Há, contudo, outro aspecto relevante: uma parcela crescente desse financiamento europeu vem de fora da Europa. Investidores dos Estados Unidos respondem atualmente por cerca de 47% do capital aplicado em defence tech europeia, evidenciando que o fortalecimento da indústria tecnológica de defesa do continente também está atraindo — e dependendo parcialmente — de capital internacional.
O fenômeno ultrapassa a Europa. Considerando países da OTAN e aliados, startups de defesa já captaram US$ 27,1 bilhões em venture capital em 2026, e a Dealroom projeta que o volume possa chegar a US$ 38,5 bilhões até dezembro.
Os números sugerem uma transformação relevante no financiamento da indústria de defesa. Um setor tradicionalmente dependente de grandes empresas, contratos governamentais e orçamento público está atraindo volumes crescentes de capital privado disposto a financiar empresas jovens, tecnologias de alto risco e novos modelos industriais.
O desafio seguinte talvez seja ainda maior: transformar esse capital em contratos, escala industrial e capacidades efetivamente adquiridas pelas Forças Armadas.
A Europa parece ter começado a resolver o problema do financiamento da inovação em defesa. Agora precisa demonstrar que consegue transformar investimento privado em capacidade militar.
Fonte: Dealroom e Resilience Media, The State of Defence Tech 2026, publicado em 5 de outubro de 2026.
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