A Arábia Saudita está experimentando uma abordagem interessante para um velho problema da indústria de defesa: como transformar, com maior rapidez, necessidades militares, tecnologias disponíveis e capacidade financeira em produção doméstica. A resposta que começa a tomar forma em Riad passa pelo venture capital, utilizado não apenas como instrumento financeiro, mas também como mecanismo de construção de capacidade industrial.
Criada em 2026, a MASNA Ventures se apresenta como o primeiro fundo saudita de capital de risco especificamente dedicado ao setor de defesa. Lançado inicialmente com capacidade de aproximadamente US$ 100 milhões, o fundo solicitou à autoridade reguladora saudita autorização para ampliar esse limite para US$ 150 milhões.
Mais importante que o tamanho do fundo, entretanto, é sua lógica de atuação. A MASNA não pretende simplesmente comprar participações em startups de defesa na expectativa de valorizá-las. Seu modelo procura utilizar capital privado para trazer tecnologias de defesa norte-americanas e de países aliados para serem industrializadas na própria Arábia Saudita. O investimento financeiro passa, dessa forma, a cumprir também uma função de localização industrial e construção de capacidade estratégica.
Da importação para a capacidade industrial
Durante décadas, a Arábia Saudita esteve entre os grandes compradores mundiais de sistemas militares estrangeiros. O programa Vision 2030 estabeleceu, entretanto, a meta de localizar no país 50% dos gastos relacionados à defesa até o final da década, inserindo iniciativas como a MASNA em um movimento mais amplo de redução da dependência externa e desenvolvimento de uma indústria nacional.
A tese do fundo é relativamente simples: identificar tecnologias já desenvolvidas e suficientemente maduras, estruturar empresas ou joint ventures sauditas capazes de produzi-las localmente e fornecer o capital necessário para colocar essas operações em funcionamento e escala. A própria gestora descreve seu papel como o de fornecer recursos para a etapa final entre uma tecnologia disponível e sua transformação em capacidade industrial doméstica.
Essa abordagem modifica significativamente a função tradicional do investidor. O fundo deixa de atuar exclusivamente como financiador de uma empresa e passa a integrar uma arquitetura na qual capital, tecnologia estrangeira, parceiro industrial local, produção doméstica e demanda de defesa são tratados como componentes de uma mesma estratégia.
Drones, sistemas autônomos e defesa marítima
As prioridades escolhidas também ajudam a compreender o modelo. A MASNA concentra seus investimentos em sistemas aéreos não tripulados, counter-UAS, tecnologias habilitadas por inteligência artificial, sistemas autônomos, consciência situacional, ataque de precisão e aplicações marítimas.
A deterioração recente do ambiente de segurança no Golfo e no Mar Vermelho aumentou a urgência atribuída a algumas dessas capacidades.
Segundo informações divulgadas pela Reuters em 22 de setembro, o fundo está acelerando especialmente os investimentos relacionados à defesa marítima e aos sistemas não tripulados diante da evolução das ameaças provenientes do conflito regional e da atuação Houthi.
O ponto relevante, portanto, não está simplesmente na aquisição de mais drones ou sistemas antidrones, mas na tentativa de desenvolver capacidade doméstica para produzi-los, adaptá-los, mantê-los e, eventualmente, evoluí-los tecnologicamente. Para um país historicamente dependente da aquisição externa de sistemas militares sofisticados, essa mudança possui implicações que ultrapassam uma decisão convencional de procurement.
A joint venture como instrumento de transferência industrial
Um dos exemplos mais interessantes é a aproximação entre a saudita SR2 Defense Systems e a norte-americana Vector Defense. A estrutura busca localizar na Arábia Saudita a fabricação, montagem e sustentação de sistemas aéreos não tripulados desenvolvidos nos Estados Unidos, cabendo à MASNA fornecer parte da arquitetura financeira necessária para viabilizar essa implantação.
O fundo também trabalha na estruturação de outra joint venture voltada a sistemas counter-UAS baseados em tecnologia norte-americana de interceptação hard-kill. A ambição declarada é chegar, ainda em 2026, a três joint ventures operacionais e seis investimentos de capital, o que permite perceber que não se trata apenas de uma operação financeira isolada, mas da tentativa de estabelecer um modelo replicável.
Nesse arranjo, o venture capital passa a exercer uma função pouco convencional. No modelo clássico, o investidor aporta capital em uma empresa, participa de seu crescimento e busca posteriormente realizar o retorno por meio da valorização de sua participação e de uma eventual saída do investimento. No modelo que começa a aparecer na Arábia Saudita, essa lógica financeira permanece presente, mas passa a ser combinada com outro objetivo: utilizar o capital para trazer tecnologia, estruturar joint ventures, estabelecer produção local e criar capacidade industrial capaz de atender à demanda de defesa do país.
O retorno financeiro continua sendo essencial, uma vez que se trata de capital privado. A diferença é que esse retorno passa a coexistir com um resultado de natureza estratégica: a formação de capacidade industrial nacional em áreas consideradas prioritárias para a defesa saudita.
A ameaça acelera o capital
Outra característica relevante é a possibilidade de utilizar essa arquitetura para responder às mudanças no ambiente estratégico em ritmo potencialmente diferente daquele dos ciclos tradicionais de aquisição militar.
O processo convencional de procurement tende a começar pela identificação de uma ameaça ou necessidade operacional, seguida pela definição de requisitos, obtenção de recursos orçamentários e realização dos procedimentos necessários à contratação e aquisição dos sistemas. Esse mecanismo continuará sendo indispensável, particularmente quando estão envolvidos recursos públicos e grandes programas militares.
Uma arquitetura financeira como a que está sendo construída pela MASNA acrescenta, entretanto, uma camada anterior e complementar. A identificação de uma necessidade estratégica pode orientar capital privado para empresas, tecnologias ou joint ventures capazes de desenvolver e produzir domesticamente determinadas soluções, permitindo que parte da capacidade empresarial e industrial seja construída antes mesmo da conclusão de um ciclo tradicional de aquisição.
Não se trata, portanto, de substituir procurement por venture capital, mas de aproximar dois universos que tradicionalmente funcionam em momentos distintos. Essa aproximação pode ser particularmente relevante em áreas caracterizadas por ciclos tecnológicos muito curtos, como drones, inteligência artificial, sistemas autônomos, cyber, sensores e aplicações espaciais.
O verdadeiro ativo pode estar além da empresa
Talvez esse seja o aspecto mais interessante do caso saudita. Quando um fundo investe na criação ou expansão de uma empresa destinada a produzir determinado sistema dentro do país, o ativo resultante não se resume à participação societária adquirida pelo investidor. Dependendo da profundidade da localização alcançada, o investimento pode contribuir também para formar fornecedores, qualificar mão de obra, estabelecer instalações industriais, desenvolver conhecimento produtivo e criar capacidade de manutenção, adaptação e evolução tecnológica.
Existe, portanto, uma diferença substancial entre adquirir tecnologia estrangeira e utilizar capital para internalizar a capacidade de produzi-la e sustentá-la. Evidentemente, a simples constituição de uma joint venture não garante transferência efetiva de tecnologia nem domínio nacional sobre componentes críticos, mas a arquitetura oferece um mecanismo adicional para perseguir esses objetivos.
E o Brasil?
O caso merece atenção brasileira porque existe no país um espaço financeiro ainda pouco desenvolvido entre três universos relativamente conhecidos: fomento público à inovação, crédito bancário e contratação governamental de defesa.
Empresas de defesa em estágio inicial, assim como tecnologias ainda em processo de demonstração, certificação ou escalonamento industrial, frequentemente não apresentam as características de risco, garantias e geração de caixa exigidas pelo financiamento bancário convencional. Ao mesmo tempo, os programas públicos de fomento à inovação cumprem funções específicas e possuem seus próprios requisitos, ciclos e limitações. Entre esses ambientes existe um espaço no qual instrumentos de capital podem desempenhar papel relevante.
Fundos especializados poderiam atuar em tecnologias de uso dual e de defesa — drones, inteligência artificial, cyber, espaço, sensores, robótica, materiais avançados e sistemas autônomos — assumindo riscos que dificilmente seriam absorvidos pelo crédito tradicional. O exemplo saudita, porém, sugere uma possibilidade adicional: utilizar capital não apenas para financiar empresas nacionais, mas também como instrumento de atração de tecnologia estrangeira e formação de capacidade industrial brasileira.
Nesse caso, joint ventures poderiam reunir investimento, tecnologia, acesso ao mercado brasileiro, produção local e desenvolvimento tecnológico dentro de uma mesma estrutura econômica. Venture capital começaria, assim, a tocar em temas normalmente tratados de maneira separada no debate brasileiro, como política industrial de defesa, investimento estrangeiro, transferência de tecnologia, offsets, conteúdo local e compras governamentais.
Uma experiência que vale acompanhar
Ainda é cedo para avaliar os resultados da MASNA. Um fundo de US$ 150 milhões continua sendo relativamente pequeno quando comparado aos grandes programas internacionais de defesa, assim como a constituição de joint ventures não assegura, por si só, transferência efetiva de conhecimento ou autonomia tecnológica. Existe também uma diferença importante entre localizar atividades de montagem e manutenção e adquirir domínio sobre tecnologias críticas, propriedade intelectual, engenharia e cadeia de suprimentos.
Por isso, talvez o aspecto mais relevante da experiência saudita não esteja, neste momento, no volume de recursos mobilizados ou mesmo nas primeiras empresas investidas, mas na arquitetura que está sendo construída. A iniciativa procura inserir o capital privado de risco dentro de uma estratégia mais ampla de formação de capacidade industrial de defesa, aproximando instrumentos financeiros normalmente associados ao universo das startups de objetivos tradicionalmente vinculados à política industrial e à segurança nacional.
Se essa experiência produzir os resultados esperados, a principal consequência não será simplesmente a formação de um portfólio de empresas de defesa bem financiadas. O resultado mais significativo será demonstrar que capital de risco também pode ser utilizado deliberadamente como instrumento para transformar acesso a tecnologia em capacidade estratégica nacional.
Para países que procuram fortalecer sua autonomia tecnológica e industrial em defesa, inclusive o Brasil, essa é uma experiência que merece ser acompanhada com atenção.
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