Governo dos EUA faz aposta bilionária em startups de terras raras


A recente notícia veiculada pela CNN Brasil, reportando que o governo dos Estados Unidos se tornará acionista de startups de terras raras, como a Vulcan Elements e a ReElement Technologies, em um acordo de US$ 1,4 bilhão, sinaliza uma intensificação dramática na corrida global por autonomia estratégica. Esta ação é um claro movimento de recomposição geopolítica e aumento das tensões tecnológicas globais, focado em transformar a segurança nacional em um vetor de desenvolvimento.

Autonomia Estratégica e a Aposta do Pentágono

O acordo entre o governo americano, a Vulcan Elements e a ReElement Technologies visa expandir a produção de ímãs de terras raras nos EUA. Estes materiais não são apenas essenciais para motores elétricos e dispositivos de alto desempenho, mas também para equipamentos cruciais de defesa, como drones, satélites e sistemas militares.

A justificativa para tal investimento massivo é direta: reduzir a dependência americana da China, que atualmente domina mais de 90% da produção global desses minerais críticos. A dependência de sistemas e materiais importados torna um país vulnerável a pressões externas em cenários de crise.

O financiamento deste projeto é um exemplo de como a segurança nacional está se tornando uma prioridade fiscal. O Office of Strategic Capital, um órgão ligado ao Departamento de Defesa (DoD), concederá empréstimos substanciais, totalizando US$ 700 milhões (US$ 620 milhões para a Vulcan Elements e US$ 80 milhões para a ReElement Technologies).

A parte mais notável do acordo é a contrapartida: o governo americano, através do Departamento de Defesa e do Departamento de Comércio, receberá participação acionária nas duas empresas. O Departamento de Comércio receberá US$ 50 milhões em participação acionária direta na Vulcan Elements, enquanto o Departamento de Defesa receberá warrants (opções de compra de ações) nas duas startups. Essa estrutura assegura que o investimento em defesa é, ao mesmo tempo, um investimento em inovação e soberania nacional.

O objetivo é criar uma cadeia produtiva 100% integrada em território americano, onde a ReElement Technologies se encarregará da reciclagem e produção de óxidos de terras raras de alta pureza, e a Vulcan Elements da produção dos metais e ímãs finais.

O Contexto Global de Crescimento em Defesa e Tecnologia

A ação dos EUA reflete uma tendência global de aumento nos gastos com defesa e o foco em novas tecnologias. Geopoliticamente, há uma escalada que tem impulsionado um novo “superciclo de defesa”.

O investimento em elementos de terras raras liga-se diretamente à necessidade de soberania tecnológica em áreas como a inteligência artificial (IA) e a cibernética. No setor de defesa americano, o investimento em IA já é uma realidade: a BigBear.ai adquiriu a Ask Sage, uma plataforma de IA generativa projetada especificamente para agências de defesa e segurança nacional, por US$ 250 milhões. Essa integração busca criar uma plataforma segura de IA que conecte software, dados e serviços de missão.

Globalmente, a demanda por tecnologias militares avançadas está alta. O Departamento de Defesa dos EUA (DoD) identificou os Sistemas Antiaeronaves Não Tripulados (C-UxS) como uma das 17 áreas prioritárias, alocando US$ 1,3 bilhão. Empresas como a DroneShield, que se especializa em tecnologia anti-drone impulsionada por IA, já capitalizam com o aumento dos orçamentos de defesa, reportando um aumento de 480% na receita no segundo trimestre de 2025.

Este foco em novos entrantes e tecnologias, evidenciado pelo investimento em startups de terras raras, pode ser visto como uma tentativa de mitigar problemas históricos da Base Industrial de Defesa dos EUA, marcada pela concentração excessiva de poder em poucas grandes contratantes, o que resultou em aumento de preços, riscos na cadeia de suprimentos e redução da inovação.

O Cenário Brasileiro em Contraste

O contexto de investimento nos EUA, onde o governo assume riscos em empresas privadas para garantir a cadeia de suprimentos crítica, pode ser contrastado com os movimentos recentes no Brasil para fortalecer sua própria Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS).

No Brasil, houve um marco importante com a aprovação pela Câmara da desvinculação de R$ 30 bilhões em gastos da área de Defesa da meta fiscal. Essa medida autoriza a exclusão de R$ 5 bilhões anuais durante seis anos (a partir de 2026) para aplicação em programas estratégicos de modernização da Marinha, Exército e Força Aérea Brasileira (FAB). A desvinculação sinaliza um reconhecimento político de que a Defesa deve ser tratada como um setor estratégico do desenvolvimento nacional.

Adicionalmente, o governo brasileiro já havia anunciado R$ 112,9 bilhões em investimentos (públicos e privados) para a Missão 6 da Nova Indústria Brasil (NIB), focada em tecnologias de interesse para a soberania e a defesa nacionais, com foco em satélites, veículos lançadores e radares.

Em resumo …

O investimento acionário dos EUA em terras raras ilustra de maneira poderosa o conceito de que a segurança nacional moderna não se sustenta apenas com efetivos militares, mas com capacidade produtiva, inovação tecnológica e previsibilidade financeira. Ao garantir o fornecimento de materiais críticos por meio da participação direta, os EUA utilizam o poder fiscal não apenas para despesa, mas como uma alavanca de desenvolvimento soberano.



Descubra mais sobre InvestDefesa.org

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.