O avanço dos enxames autônomos navais: o que revela a nova estratégia dos EUA ?


A reportagem publicada pela Barron’s, intitulada The Air Force Wants Swarms of Autonomous Vehicles. So Does the Navy, oferece uma leitura precisa e oportuna sobre a transformação em curso no setor de defesa dos Estados Unidos, especialmente na integração de sistemas autônomos em larga escala tanto no domínio aéreo quanto no marítimo. Segundo a matéria, a Força Aérea e a Marinha norte-americanas aceleram investimentos em enxames de plataformas não tripuladas, buscando ampliar dissuasão, reduzir custos unitários e restabelecer vantagem estratégica em um ambiente global marcado pela competição tecnológica e pela imprevisibilidade operacional. Trata-se de um movimento que ultrapassa o campo da inovação incremental e configura uma mudança de paradigma equivalente às grandes revoluções tecnológicas militares do século XX.

O cerne da transformação apontada pela Barron’s reside na substituição parcial das chamadas plataformas “exquisite” — sistemas altamente customizados, extremamente caros e limitados em escala de produção — por plataformas modulares, autônomas, de baixo custo e operáveis em grandes números. A matéria destaca, por exemplo, a parceria entre a Anduril Industries e a HD Hyundai Heavy Industries, voltada ao desenvolvimento de uma nova geração de Autonomous Surface Vessels (ASVs) no contexto do programa Modular Attack Surface Craft (MASC) da Marinha dos EUA. O mesmo impulso aparece nos programas da Força Aérea, que avançam rapidamente na direção de enxames de veículos aéreos autônomos capazes de atuar em conjunto com aeronaves tripuladas, ampliando alcance, resiliência e capacidade de sobrevivência em ambientes contestados. Essa convergência evidencia que a doutrina de emprego das Forças Armadas norte-americanas está migrando para um modelo de saturação distribuída, interoperável e altamente dinâmica.

As implicações estratégicas dessa transição são profundas. A autonomia em escala redefine a lógica de operação naval e aérea, deslocando a ênfase de poucos ativos de alto valor para muitos ativos de baixo custo com elevada capacidade de cooperação, coordenação e adaptação. A introdução de enxames autônomos no ambiente marítimo cria novas possibilidades de patrulhamento persistente, interdição avançada, guerra de minas, escolta inteligente e reconhecimento multidomínio, reduzindo riscos a tripulações e ampliando a força efetiva projetada. Somado a isso, a dependência crescente de inteligência artificial, sensores avançados, comunicações robustas e resiliência cibernética transforma profundamente as cadeias de suprimento, a forma de contratação e os ciclos de modernização. Em termos econômicos, a tendência global é clara: os países que dominarem a integração de autonomia, escala e modularidade serão os que liderarão a próxima geração de sistemas de defesa.

Para o Brasil e para a Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS), o conteúdo da reportagem serve como alerta e como oportunidade. A Marinha do Brasil já opera programas inovadores em áreas como guerra de minas, sistemas de vigilância marítima, embarcações modulares e pesquisas em veículos de superfície não tripulados. Contudo, a escala, o ritmo e a profundidade dos investimentos globais indicam que o país precisa avançar rapidamente para evitar perda de competitividade e vulnerabilidade estratégica. A BIDS brasileira, ainda muito concentrada em grandes plataformas e ciclos longos de produção, deverá reposicionar-se para atender à demanda crescente por sistemas autônomos, software embarcado, sensores compactos, arquitetura digital, motores elétricos e inteligência artificial aplicada ao ambiente naval e aéreo. A autonomia torna-se, portanto, não apenas um vetor de inovação, mas um requisito de soberania.

Nesse contexto, surgem oportunidades claras para novos arranjos de financiamento, parcerias internacionais e modelos industriais mais ágeis. O Brasil pode buscar cooperação estruturada com países que já avançam agressivamente em enxames navais, como Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Coreia do Sul, especialmente em programas de co-desenvolvimento ou co-produção que envolvam módulos autônomos, cargas úteis inteligentes ou embarcações leves não tripuladas. Ao mesmo tempo, instrumentos financeiros inovadores — incluindo fundos de investimento setoriais, FIPs tecnológicos, incentivos à prototipagem rápida e até tokenização de capacidades autônomas — podem criar um ambiente favorável para que empresas brasileiras ampliem escala e capacidade exportadora. Para a BIDS, esta é uma janela de oportunidade rara: participar desde já da economia da autonomia significa garantir relevância global nos próximos 10 a 15 anos.

Em síntese, a reportagem da Barron’s mostra que o mundo caminha inevitavelmente para uma era em que a superioridade militar será definida não apenas pelo poder de fogo ou pela plataforma mais cara, mas pela capacidade de integrar inteligência artificial, modularidade, produção em escala e coordenação distribuída entre sistemas autônomos. Para o Brasil, o desafio é duplo: evitar que a defasagem tecnológica aumente e aproveitar a chance de se inserir em cadeias globais que estão sendo redesenhadas. Mais do que uma tendência tecnológica, a ascensão dos enxames autônomos navais representa uma mudança estrutural na própria lógica da dissuasão contemporânea — e a BIDS brasileira precisa estar preparada para aproveitar esse novo ciclo.



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