Como o país centro-asiático transformou política industrial em política de defesa — e o que o Brasil pode aprender com isso
O Bank for Development of Kazakhstan (BDK) anunciou recentemente o lançamento de um programa de financiamento de US$ 1 bilhão destinado à extração e processamento de metais críticos e terras-raras no país. O plano, com horizonte de execução até 2030, busca reduzir a dependência do Cazaquistão de importações tecnológicas e consolidar o país como fornecedor estratégico de insumos vitais para as indústrias de defesa, energia limpa e semicondutores.
Essa decisão não é isolada. O movimento acompanha uma tendência global em que financiamento soberano e segurança nacional se fundem. Ao criar linhas de crédito de longo prazo com juros subsidiados, o governo cazaque reconhece que minerais críticos não são apenas commodities, mas sim ativos geoestratégicos. Nióbio, lítio, cobalto, terras-raras e antimônio são hoje a base de tecnologias militares avançadas, baterias de mísseis, sistemas de radar, veículos elétricos e componentes eletrônicos de duplo uso — civis e militares.
A lógica é clara: quem domina as cadeias de suprimento desses minerais controla o futuro industrial e militar. Ao estruturar o BDK como eixo financeiro dessa política, o Cazaquistão dá um passo à frente de muitas economias emergentes, ao tratar o financiamento não apenas como mecanismo econômico, mas como instrumento de soberania. O modelo cazaque combina recursos públicos com capital privado e prevê a participação de parceiros estrangeiros sob cláusulas de conteúdo local e transferência tecnológica — uma forma prática de alinhar investimento externo a interesses nacionais.
Para o Brasil, o exemplo é especialmente relevante. O país possui uma das maiores reservas mundiais de minerais estratégicos — do nióbio mineiro ao lítio nordestino — mas carece de um mecanismo financeiro estruturado capaz de articular mineração, pesquisa, defesa e exportação. O DefenseBank, por exemplo, poderia adotar uma abordagem inspirada no BDK, canalizando fundos soberanos, recursos do BNDES e de investidores internacionais para projetos que consolidem cadeias críticas de suprimento associadas à Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS).
Além disso, o caso cazaque evidencia que autonomia tecnológica começa pelo financiamento. Nenhum país constrói independência estratégica sem um ecossistema financeiro capaz de sustentar riscos de longo prazo. O investimento de US$ 1 bilhão do Cazaquistão é modesto em escala global, mas emblemático em seu significado: é o prenúncio de uma nova forma de pensar a política industrial como política de defesa.
Ao observar esse movimento, o Brasil tem diante de si uma oportunidade rara: transformar sua riqueza mineral em instrumento de poder nacional — integrando mineração, defesa e finanças em um mesmo projeto de Estado. O Cazaquistão mostra o caminho. Cabe ao Brasil decidir se quer segui-lo.

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