Pouco conhecido fora dos círculos financeiros, o SWIFT é uma das engrenagens mais poderosas do planeta. Ele não fabrica armas, não aparece em discursos de campanha e não estampa manchetes diárias — mas decide, silenciosamente, quem pode pagar, quem pode receber e quem será isolado do sistema financeiro global. No tabuleiro da geopolítica, o SWIFT é tão decisivo quanto a diplomacia e, em certos casos, mais letal do que um míssil.
Aspectos gerais do SWIFT
O SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications) é uma rede de mensageria padronizada para instituições financeiras. Trata-se de uma cooperativa de direito belga, pertencente aos próprios bancos que a utilizam e sujeita a um modelo de governança interna combinado com a supervisão de bancos centrais do G10, sob a liderança do National Bank of Belgium.
Por sua natureza e abrangência global, o SWIFT é classificado como infraestrutura crítica, o que significa que aspectos como riscos operacionais, continuidade de serviços, cibersegurança, resiliência e proteção de dados são objeto permanente de auditorias e exercícios supervisionados pelas autoridades competentes.
Um aspecto fundamental a se registrar: o SWIFT não movimenta fundos, não mantém saldos em conta e não age como câmara de compensação. O que faz é transportar instruções de pagamento ou liquidação entre bancos, com identificação padronizada (códigos dos bancos, códigos de mensagem, criptografia, roteamento).
Assim, eventuais políticas, sanções e controles não incidem sobre “o dinheiro que está dentro do SWIFT”, mas sobre quem pode mandar que mensagem para quem, e quais filtros regulatórios serão aplicados no processo (listas de sanção, screening, compliance bancário).
Os números do sistema SWIFT são, de fato, impressionantes. Segundo informações oficiais da própria instituição, a rede hoje conecta mais de 11.500 instituições, em quase 200 países e trafega, em média, 53 milhões de mensagens financeiras por dia, ou seja, uma média superior a 600 operações por segundo.
Um artigo da TeleGeography estima que, em 2004, ou seja, há mais de 20 anos, com aproximadamente 10 milhões de mensagens por dia e valor médio de US$ 500 mil por mensagem, o volume diário movimentado era da ordem de US$ 5 trilhões.
Diante dessa realidade, nota-se que o SWIFT não é apenas instrumento “acessório” de comunicação interbancária, mas , sim, uma infraestrutura essencial, e cotidiana, para movimentação de grandes volumes financeiros globais.
A relação do SWIFT com os bancos
Efetivamente, o acesso dos bancos ao SWIFT não é apenas uma conveniência tecnológica, mas sim uma condição de existência no mercado internacional. Operações como transferências internacionais (remessas de clientes, pagamentos de fornecedores no exterior), liquidações interbancárias, confirmações de crédito documentário e instruções relacionadas a derivativos ou títulos passam invariavelmente pela rede. Sem o SWIFT, essas transações ficariam dependentes de canais bilaterais fragmentados, muito mais caros, lentos e sujeitos a falhas.
No que diz respeito às operações típicas realizadas via SWIFT, estas incluem desde um simples pagamento de importação — em que um banco envia uma ordem de transferência em dólar para um correspondente nos Estados Unidos — até processos mais sofisticados, como aqueles utilizados para liquidação entre bancos em operações complexas de comércio exterior, ou as mensagens ligadas a cartas de crédito, fundamentais para dar segurança em contratos internacionais. Além disso, com a evolução para o padrão ISO 20022, prevista para ser efetivada em novembro deste ano, os bancos passarão a transmitir dados ainda mais detalhados, o que irá favorecer a transparência, o compliance e a rastreabilidade, reduzindo riscos e fortalecendo a confiança do sistema.
Note-se que essas operações são vitais porque constituem a própria base de negócios de um banco moderno: possibilitam que clientes corporativos exportem e importem, que investidores recebam ou enviem recursos, que governos paguem ou rolem dívidas externas e que os próprios bancos mantenham sua liquidez em diversas moedas.
Assim, ficar desconectado do SWIFT é um luxo ao qual um banco sério não pode se dar, pois significaria, em termos objetivos, perder acesso ao “sistema circulatório” das finanças globais. Para instituições financeiras, isso equivaleria a um colapso funcional: sem capacidade de se comunicar com seus pares, ela ficaria isolada do sistema internacional, perdendo sustentabilidade financeira, credibilidade e inviabilizando seu modelo de negócios.
Segurança, CSP e fraude
A segurança é um dos pontos mais críticos quando se fala em SWIFT. Por lidar diariamente com bilhões de dólares em instruções financeiras, a rede se tornou alvo natural de hackers e criminosos digitais. Para mitigar esses riscos, a rede SWIFT desenvolveu o Customer Security Programme (CSP), um conjunto de regras obrigatórias que todos os bancos participantes precisam cumprir.
Mas é importante destacar: a responsabilidade não é apenas da rede. Existe uma divisão clara de papéis entre o que o SWIFT protege — como a integridade da infraestrutura global e o padrão de mensagens — e o que cabe ao próprio banco, como a segurança de seus sistemas internos, controles de acesso e monitoramento de transações suspeitas.
O caso mais famoso de ataque ao sistema, e que se tem notícia, é o do Banco Central de Bangladesh (2016), em que hackers usaram credenciais de SWIFT para emitir ordens fraudulentas, resultando em prejuízo de cerca de US$ 81 milhões. Embora nem todo esse valor tenha sido levado, o episódio escancarou que a falha não estava no SWIFT, mas no sistema vulnerável de um participante.
Geopolítica e Poder: lições de Irã e Rússia
Poucos episódios recentes ilustram tão bem o poder geopolítico do sistema financeiro quanto as sanções aplicadas via exclusão do SWIFT. Embora a rede não mova dinheiro nem bloqueie contas por iniciativa própria, sua natureza de infraestrutura global a transforma em um instrumento de dissuasão estatal quando acionada por decisões políticas.
Em 2012, bancos iranianos foram desligados da rede por decisão do Conselho da UE, inviabilizando boa parte de seus fluxos financeiros internacionais. Em 2022, com a invasão da Ucrânia, diversos bancos russos foram excluídos parcialmente do SWIFT por decisão europeia, dificultando transações em comércio exterior. Em ambos os casos, os países não tiveram “contas SWIFT bloqueadas” — mas sofreram severa fragilização dos fluxos remuneratórios que atravessavam a rede.
Esses exemplos demonstram que, no mundo moderno, controlar mensageria financeira equivale a exercer poder sobre a capacidade de um país operar normalmente no mercado global. Ou seja, o SWIFT, além de padrão técnico, é também um vetor de pressão política e econômica — algo que as empresas não podem ignorar ao planejar contratos em mercados de risco.
Alternativas e tendências (CIPS, SPFS, blockchain)
Esse papel central do SWIFT no sistema financeiro global despertou, naturalmente, o interesse de grandes potências em desenvolver alternativas capazes de reduzir sua dependência dessa infraestrutura.
Assim, a China, com o CIPS (Cross-Border Interbank Payment System / Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços), busca fortalecer o uso internacional do yuan. Atente-se que, diferentemente do SWIFT, esse sistema combina mensageria + liquidação. Ou seja, além de enviar a instrução (função SWIFT-like), ele também realiza a liquidação efetiva dos pagamentos em yuan, funcionando como uma espécie de “câmara de compensação internacional do RMB”, sob supervisão direta do People’s Bank of China (PBoC).
A Rússia, por sua vez, com o SPFS (System for Transfer of Financial Messages / Sistema para Transferência de Mensagens Financeiras), procurou mitigar o impacto das sanções sofridas em 2022. O objetivo do SPFS é prover uma rede doméstica de mensageria financeira que garanta continuidade das operações entre bancos russos, mesmo em caso de isolamento internacional.
Paralelamente a tudo isso, os atuais avanços tecnológicos em blockchain, moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) e tokenização de ativos também oferecem caminhos para redes mais distribuídas, rápidas e transparentes.
Ainda que nenhuma dessas opções tenha alcançado a escala ou a confiabilidade do SWIFT, seu crescimento aponta para um cenário de maior fragmentação e disputa pelo controle da mensageria financeira internacional.
Situação atual das alternativas
- CIPS (China): Opera liquidação e compensação em RMB (renminbi), mas várias de suas mensagens ainda transitam via SWIFT, demonstrando grau de interdependência.
- SPFS (Rússia): Rede doméstica russa de mensageria alternativa, com alcance limitado. Ele foi desenvolvido pelo Banco Central da Rússia em 2014, logo após a crise da Crimeia, quando surgiram ameaças de exclusão do país do SWIFT.
- Propostas de CBDCs, redes distribuídas e tokenização: a própria rede SWIFT já testa integração com ledger blockchain e ativos tokenizados para garantir relevância no ambiente digital.
Vantagens do SWIFT vs Alternativas
A vantagem principal do SWIFT em relação às atuais alternativas é sua escala global e aceitação consolidada. Mesmo soluções promissoras precisarão provar estabilidade, segurança, liquidez e interoperabilidade antes de ameaçar seriamente sua posição.
De todo modo, é estratégico para qualquer país acompanhar esses desenvolvimentos, participar de pilotos (se possível) e garantir que soluções locais ou complementares possam interoperar com o SWIFT.
O SWIFT e a Gestão de Dívida Externa
Aqui temos um ponto pouco discutido, mas fundamental. Quase todos os países possuem dívida externa denominada em moedas fortes (principalmente dólar e euro). O pagamento dessa dívida depende, em última instância, da capacidade de estes países enviarem mensagens financeiras corretas e seguras a bancos internacionais. O canal natural para isso é o SWIFT.
Quando um país (e.g. Brasil) emite dívida no exterior (eurobônus, empréstimos multilaterais ou bilaterais), ou quando precisa remeter juros ou amortizações para credores no exterior, essas transações envolvem, quase sempre, mensagens financeiras a bancos externos. O canal natural dessas mensagens, especialmente para correspondentes internacionais, é o SWIFT (ou redes equivalentes padronizadas).
Nesse sentido se, por exemplo, o Brasil fosse desconectado da rede ou passasse a operar sob severas restrições de mensageria, remeter essas obrigações financeiras poderia exigir rotas alternativas caras (correspondentes múltiplos, redes paralelas, intermediários de menor liquidez) — escalando custos, prazos, risco de erro e insegurança jurídica.
Assim, em última análise, ter pleno acesso ao SWIFT e operar em padrões internacionais (ISO 20022, CSP, etc) é uma condição de soberania financeira: o país garante que possa honrar suas obrigações internacionais com previsibilidade, confiabilidade e custo compatível com mercados globais.
Considerações finais
Diante do exposto, o SWIFT se revela como mais do que uma mera rede de mensageria financeira: é uma infraestrutura crítica que sustenta o funcionamento cotidiano das finanças globais, um mecanismo de dissuasão em disputas geopolíticas e uma condição indispensável para que países honrem suas dívidas e se mantenham integrados ao comércio internacional. Sua combinação de alcance, padronização e credibilidade dificilmente será superada no curto prazo por alternativas como CIPS, SPFS ou redes baseadas em blockchain, que ainda carecem de escala e interoperabilidade.
Para o Brasil, e em particular para setores estratégicos como a Base Industrial de Defesa e Segurança, compreender o papel do SWIFT é parte essencial da formulação de políticas e da estruturação de negócios. Estar conectado à rede em conformidade com padrões internacionais significa reduzir riscos, atrair investimentos e garantir que operações de exportação, importação e financiamento ocorram com fluidez.
Por fim, a questão não é apenas técnica, mas de soberania. Manter acesso seguro e estável ao SWIFT equivale a assegurar que o país continue capaz de dialogar com o sistema financeiro global em pé de igualdade, preservando sua credibilidade e sua capacidade de projetar poder econômico e estratégico em um mundo cada vez mais interdependente.

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