Exportações G2G: A Chave para a Indústria de Defesa no Brasil?


Nos últimos anos, o Brasil tem buscado ampliar sua presença no mercado internacional de defesa, promovendo a Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS) como vetor de inovação, geração de empregos qualificados e fortalecimento da soberania. No entanto, malgrado diversos esforços e iniciativas, persiste uma lacuna estrutural que compromete a competitividade brasileira nessa área: a ausência de um modelo robusto e institucionalizado de exportações G2G (Government-to-Government), consolidado como pilar estratégico em países que lideram o comércio global de produtos e serviços de defesa.

Como sabemos, a abordagem G2G não é uma invenção brasileira. Pelo contrário, ele é a espinha dorsal da atuação de potências exportadoras como Estados Unidos, França, Suécia, Israel e Coreia do Sul. A lógica é simples: ao envolver o Estado como garantidor político, diplomático e financeiro, reduz-se o risco percebido pelo país comprador e aumenta-se exponencialmente a confiança na operação. Uma venda que seria apenas comercial torna-se um ato de política de Estado, blindando o processo contra mudanças de governo e incertezas contratuais.

No caso das exportações de defesa, esse ponto se torna ainda mais crítico: ao contrário da soja, do minério de ferro ou de aeronaves civis, que podem ser negociados com compradores privados, os produtos e serviços de defesa são quase sempre adquiridos por governos soberanos. Isso significa que cada contrato exige uma combinação complexa de linhas de financiamento, seguros de crédito à exportação, garantias soberanas e, muitas vezes, suporte diplomático de alto nível. É nesse ambiente que um modelo G2G se mostra indispensável.

E aqui entra um fator pouco discutido, mas absolutamente essencial: a necessidade de um ecossistema financeiro coordenado, integrado e especializado em apoiar a BIDS. Exportar defesa não é simplesmente vender — é montar operações de alto valor agregado que tipicamente envolvem prazos longos, riscos geopolíticos e compradores estatais. Sem a presença de instrumentos robustos de financiamento (como linhas específicas do BNDES e de bancos de desenvolvimento), seguros de crédito à exportação customizados (como os praticados pela EDC canadense ou pela COFACE francesa) e garantias soberanas ágeis bem estruturadas, as empresas brasileiras, especialmente as MPME, ficam em clara desvantagem frente aos concorrentes internacionais. Em outras palavras, sem esse tripé — financiamento, seguro e garantia — o discurso sobre ampliar as exportações da BIDS fica bastante fragilizado.

Mais do que ter instrumentos dispersos, o Brasil precisa de efetiva coordenação institucional. Hoje, BNDES, Finep, ABGF (Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias) e Itamaraty atuam de forma heróica, porém sem uma estratégia conjunta que vise convergir em uma política clara voltada à BIDS. Um ecossistema financeiro realmente eficaz deveria integrar esses atores em uma lógica de “balcão único” ágil e coordenado para a BIDS, onde o empresário não precisasse navegar por inúmeros órgãos em busca de apoio ou orientação. Países que lideram esse mercado já compreenderam que o financiamento e a diplomacia caminham juntos: o Israel Export Insurance Corporation (ASHRA), a SACE da Itália, ou a Allianz Trade (anteriormente Euler Hermes) na Alemanha são apenas alguns exemplos de como o Estado estrutura ferramentas para alavancar sua indústria de defesa no exterior.

Tomemos o exemplo dos EUA. O programa Foreign Military Sales (FMS), gerido pelo Departamento de Defesa (atualmente Departamento de Guerra), responde por grande parte das exportações americanas, oferecendo não apenas os equipamentos, mas também pacotes de treinamento, manutenção e, sobretudo, a chancela política de Washington. Na Europa, a França usa o G2G como instrumento para sustentar o peso internacional de empresas como Dassault e Naval Group. Israel, por sua vez, transformou seu modelo G2G em ativo de soft power, expandindo alianças estratégicas com países que se tornaram não apenas clientes, mas parceiros de longo prazo. O Brasil não pode se dar ao luxo de permanecer sem algum arranjo similar.

Sim, e o Brasil? Embora tenhamos uma BIDS reconhecida — com empresas como Embraer Defesa, Avibras, AEL Sistemas e SIATT —, a maioria das exportações das MPME do setor acontecem, em grande medida e por diversas razões, em negociações diretas (B2B ou B2G), em contratos isolados e pontualmente apoiados por diplomacia e adidâncias militares. Memorandos de entendimento e parcerias bilaterais existem, de fato, mas não constituem, de forma alguma, um sistema permanente e previsível de G2G, capaz de dar escala às exportações nacionais. O resultado é uma assimetria clara: concorrentes internacionais chegam às mesas de negociação acompanhados de seus Estados; as empresas brasileiras, especialmente as MPME, muitas vezes chegam sozinhas.

Essa lacuna, como se pode imaginar, se reflete em oportunidades perdidas. Diversos países em desenvolvimento, especialmente na África, no Oriente Médio e no Sudeste Asiático, preferem negociar com Estados, não apenas com empresas, justamente porque enxergam o contrato como parte de uma aliança política e estratégica. A ausência de um mecanismo G2G brasileiro voltado para a BIDS dificulta a inserção em mercados onde a confiança no respaldo governamental é requisito indispensável.

É importante ressaltar que, sim, o Brasil já dispõe de instrumentos institucionais que poderiam sustentar um modelo de G2G mais estruturado. O Itamaraty, com sua rede de embaixadas; as Forças Armadas, por meio dos adidos militares e de defesa; e entes públicos de fomento, como BNDES e Finep, entre outros, poderiam compor um framework robusto de apoio às exportações da BIDS. No entanto, conforme já dito, há uma frágil integração sistêmica dessas peças em uma política clara, previsível e de longo prazo.

E aqui reside a grande questão: até quando o Brasil conseguirá atuar nesse setor de forma ad hoc, enquanto seus competidores já operam estrategicamente? Caso insistamos em tratar a exportação de defesa apenas como transação comercial, sem o peso da diplomacia e de políticas efetivas de Estado, continuaremos a permanecer às margens do comércio global de defesa. É uma escolha que limita nossa indústria e, em última instância, nossa soberania.

Desta feita, transformar o G2G em política pública brasileira não é apenas uma questão de competitividade. É uma afirmação de soberania, uma decisão de se posicionar como ator relevante no mercado internacional de defesa. Se a BIDS é, de fato, estratégica para o país, não podemos continuar terceirizando a responsabilidade de abrir mercados às empresas, deixando-as sozinhas em disputas que, por natureza, são geopolíticas.

O Brasil tem os instrumentos, a indústria e o mercado potencial. O que nos falta, talvez, seja a coragem de transformar o G2G, em Defesa, em política de Estado — não como exceção, mas como regra.


Ecossistema Financeiro da Indústria de Defesa do Brasil
Um Guia Completo para Empresários, Industriais e Profissionais da BIDS BR


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