Minerais Críticos e a Nova Estratégia da US Development Finance Corporation (DFC)


Em artigo publicado pela Reuters em 25 de julho de 2025, o repórter Trevor Hunnicutt revelou uma movimentação significativa no tabuleiro geopolítico-financeiro dos Estados Unidos: a proposta da atual administração americana de expandir substancialmente o poder de fogo da US International Development Finance Corporation (DFC) — agência de financiamento ao desenvolvimento fundada em 2019 como sucessora da OPIC.

A proposta, ainda em tramitação no Congresso, prevê a elevação do teto de investimentos da DFC dos atuais US$ 60 bilhões para US$ 250 bilhões, além de uma alteração estrutural relevante: o ingresso do Secretário de Defesa no seu Conselho de Administração. A medida sinaliza uma guinada definitiva rumo à convergência entre política de desenvolvimento, segurança nacional e projeção de poder econômico.

O que é a DFC e como surgiu essa nova ferramenta de poder econômico americano?

A U.S. International Development Finance Corporation (DFC) foi criada em 2019 como resultado da consolidação da Overseas Private Investment Corporation (OPIC) com parte das funções do U.S. Agency for International Development (USAID), por meio do BUILD Act (Better Utilization of Investments Leading to Development). Seu objetivo central era mobilizar o setor privado para impulsionar o desenvolvimento sustentável em países de baixa e média renda, especialmente em regiões onde a presença de instituições financeiras ocidentais era limitada ou nula.

Diferente de agências de ajuda tradicional, a DFC opera sob uma lógica de investimento com retorno financeiro e impacto estratégico, oferecendo produtos como:

  • Financiamentos diretos de longo prazo;
  • Garantias de crédito para investidores privados;
  • Seguros contra riscos políticos (expropriação, guerra, instabilidade);
  • Participações acionárias em projetos de interesse; e
  • Assistência técnica para estruturação de investimentos.

Com um portfólio inicialmente de até US$ 60 bilhões, a DFC buscava apoiar infraestrutura crítica, energia limpa, saúde, telecomunicações e inclusão financeira, alinhando-se aos princípios de governança democrática, transparência e respeito aos direitos humanos.

Entretanto, à medida que as tensões geopolíticas globais se intensificaram — e à luz do avanço da influência chinesa por meio da Belt and Road Initiative (BRI) — a DFC passou a assumir também um papel de dissuasão econômica, promovendo alternativas de financiamento “livres e abertas” como parte da estratégia dos EUA de contenção geoestratégica e fortalecimento de seus aliados.

Uma nova DFC para uma nova ordem global

A DFC foi criada com a missão de apoiar investimentos privados sustentáveis em países em desenvolvimento, oferecendo garantias, seguros, empréstimos e capital para projetos de infraestrutura, energia, saúde e tecnologia. Contudo, o atual contexto de reordenação geopolítica acelerada — com a emergência de blocos alternativos como o BRICS+, o avanço chinês via a Belt and Road Initiative (BRI), e os conflitos estratégicos de alta intensidade — impôs novas funções à agência.

A nova proposta visa fazer da DFC uma ferramenta de dissuadir a influência chinesa e russa em regiões críticas, com destaque para África, Sudeste Asiático, América Latina e Europa Oriental. Ao vincular a agência ao Departamento de Defesa, o governo dos EUA deixa claro que considera o desenvolvimento econômico de aliados e parceiros como parte de sua doutrina de segurança nacional.

DFC e Defesa: uma simbiose estratégica

A aproximação entre a DFC e o setor de Defesa não é novidade, mas sua formalização institucional inaugura uma nova lógica: a utilização de instrumentos financeiros como armas de influência e sustentação de cadeias industriais críticas. Isso inclui desde:

  • Financiamento à modernização militar de países aliados;
  • Apoio a projetos de infraestrutura com valor dual (civil e militar);
  • Fomento à produção local de insumos estratégicos (ex: terras raras, semicondutores); e
  • Incentivo a empresas norte-americanas em setores sensíveis a expandirem para mercados parceiros com respaldo oficial.

Essa abordagem se alinha a tendências globais como os fundos soberanos de defesa dos Emirados Árabes (EDGE), os programas de offsets tecnológicos, e a crescente preferência por investimentos públicos com impacto em segurança nacional.

Minerais estratégicos: a nova fronteira da segurança energética e industrial

Dentro dessa mudança de escopo, a DFC passou a priorizar projetos ligados à exploração e processamento de minerais críticos, essenciais para a indústria de alta tecnologia e defesa. Itens como terras raras, lítio, nióbio, cobalto, grafite, tungstênio e antimônio — insumos indispensáveis para baterias, microchips, motores elétricos, sistemas de mísseis e tecnologias aeroespaciais — passaram a figurar no radar da agência.

Essa atuação se intensificou a partir de 2022, com aportes diretos em projetos de mineração e refino em países aliados. Entre os exemplos mais simbólicos está o apoio à MP Materials, nos EUA, e a parcerias com Austrália e África. O objetivo é claro: reduzir a dependência da cadeia dominada pela China, que hoje controla mais de 60% do suprimento global desses insumos estratégicos.

No contexto da proposta de expansão para US$ 250 bilhões, estima-se que ao menos 15% a 20% dos recursos sejam destinados a iniciativas ligadas à resiliência industrial e energética ocidental, abrindo novas janelas de oportunidade para países com vastas reservas minerais, como o Brasil.

Implicações para o Brasil e a Base Industrial de Defesa (BIDS)

O Brasil ainda é pouco integrado às estratégias da DFC. No entanto, essa ampliação da agência abre uma janela importante para reposicionamento geoeconômico, especialmente se o país:

  1. Desenvolver projetos binacionais com forte componente de segurança energética, alimentar ou logística;
  2. Formalizar parcerias G2G (governo a governo) com os EUA e outros aliados da DFC em áreas como defesa cibernética, biotecnologia, mineração crítica e mobilidade estratégica;
  3. Criar instrumentos espelho no Brasil, como um fundo nacional para cofinanciar projetos com agências de fomento internacionais (DFC, UKEF, JBIC, Bpifrance, etc.);
  4. Articular uma diplomacia econômica voltada à inserção da BIDS em cadeias de valor globais, com foco na complementariedade tecnológica.

É crucial lembrar que a DFC já demonstrou interesse no Brasil em iniciativas ligadas a telecomunicações e energia. Mas com a nova configuração, haverá espaço também para empresas de defesa, tecnologia satelital, monitoramento de fronteiras e inteligência artificial, desde que o país atue com inteligência estratégica e institucionalidade sólida.

Oportunidade para os Agentes Financeiros

A proposta de ampliação da DFC reforça o papel de agentes financeiros especializados, especialmente aqueles reconhecidos como ED/EED pelo MD (e.g. DefenseBank), na criação de pontes entre projetos nacionais e fundos estratégicos internacionais. Um banco com missão de apoiar a sustentabilidade financeira da indústria de defesa e segurança, pode atuar como:

  • Coestruturador de operações com a DFC em solo brasileiro;
  • Intermediário técnico em due diligences e garantias;
  • Gestor de fundos temáticos de inovação dual-use e defesa verde; e
  • Articulador entre empresas da BIDS e programas internacionais de financiamento.

Considerações finais

A DFC é hoje mais do que uma agência de desenvolvimento: tornou-se um instrumento explícito da nova diplomacia financeira de Washington, onde capital, segurança e influência se entrelaçam em nome da estabilidade do sistema liderado pelos EUA. Para o Brasil, compreender essa mudança e posicionar-se de forma inteligente pode ser a chave para acessar recursos, tecnologia e protagonismo em um cenário internacional cada vez mais disputado.

Ignorar esse movimento é correr o risco de marginalização em temas centrais para o futuro: infraestrutura crítica, cadeias industriais resilientes, soberania tecnológica e segurança energética. Em contrapartida, conectar-se a esse novo eixo pode abrir portas para um novo ciclo de crescimento para a Base Industrial de Defesa e Segurança nacional, com autonomia, investimento e propósito.



Descubra mais sobre InvestDefesa.org

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.