A Corrida Global por Minerais Críticos: O Mínimo Que Você Precisa Saber


Nos últimos anos, a disputa global por minerais estratégicos — também chamados de minerais críticos — transformou-se em uma das maiores fontes de tensão entre as principais potências mundiais. Dos painéis solares aos drones de uso militar, das baterias de veículos elétricos aos chips avançados de inteligência artificial, uma parcela crescente da infraestrutura econômica e da segurança nacional de qualquer país depende de insumos minerais específicos, extraídos em poucas regiões do planeta.

Governos como os dos Estados Unidos — desde Trump 2016 —, da União Europeia, do Japão, da Austrália e, claro, da China, vêm ampliando restrições, incentivos e políticas industriais para garantir acesso estável a esses recursos. Mais do que uma questão de mineração, trata-se de assegurar soberania tecnológica, autonomia energética e vantagem militar, num cenário em que as cadeias globais de suprimento se tornaram armas geopolíticas.

Mas, afinal, quais são esses minerais que têm preocupado líderes mundiais, moldado novos fundos de investimento estratégicos e redesenhado acordos de defesa e comércio?

1. O que são minerais estratégicos ou críticos?

Minerais estratégicos (ou críticos) são recursos minerais considerados essenciais para a economia, a defesa e as tecnologias de ponta de um país, mas que têm risco elevado de interrupção no fornecimento. Eles são fundamentais em cadeias de produção como:

  • Energia renovável (painéis solares, turbinas eólicas, baterias)
  • Mobilidade elétrica (veículos elétricos, baterias de lítio)
  • Indústria de defesa (mísseis, radares, drones, satélites)
  • Tecnologia avançada (chips semicondutores, telecomunicações, IA)

A preocupação não é só geológica, mas geopolítica: muitos desses minerais são concentrados em poucos países — e quem controla a extração, refino e comercialização tem vantagem estratégica.


2. Quais são os principais minerais críticos hoje?

A lista pode variar de país para país, mas alguns aparecem de forma recorrente nos relatórios de UE, EUA, Japão, China e Austrália:

  • Terras Raras (Rare Earth Elements — REE): conjunto de 17 elementos essenciais para ímãs permanentes de alta performance, usados em motores de veículos elétricos, mísseis guiados, turbinas eólicas e smartphones. A China domina cerca de 60% a 80% da produção e refino global.
  • Lítio: base para baterias de íons de lítio — fundamentais para carros elétricos, celulares e armazenamento de energia renovável. Austrália, Chile, China e Argentina concentram quase toda a produção.
  • Níquel: também usado em baterias de alta densidade e na indústria do aço inoxidável.
  • Cobalto: crucial para baterias de alto desempenho. A República Democrática do Congo detém mais de 60% da produção mundial, o que gera preocupações com questões sociais, ambientais e estabilidade política.
  • Cobre: amplamente usado em sistemas elétricos e infraestrutura de energia renovável, além de cabos, motores e redes de transmissão.
  • Grafite natural e sintético: principal material para ânodos de baterias de lítio. A China domina mais de 70% da produção global.
  • Tungstênio: empregado em ligas metálicas de alta resistência, munições perfurantes e ferramentas de corte.
  • Vanádio: importante para baterias de fluxo redox (armazenamento de energia em grande escala) e ligas de aço.
  • Platina e outros metais do grupo da platina (PGMs): catalisadores para a indústria automotiva, pilhas a hidrogênio e joalheria.
  • Gálio, germânio e índio: críticos para semicondutores, painéis solares, LEDs e telecomunicações 5G.

3. Por que isso preocupa Trump, Xi Jinping e outros líderes?

A preocupação das grandes nações, e seus respectivos líderes, faz sentido e fundamenta-se em alguns fatores determinantes, entre os quais destacam-se:

  • Dependência externa: EUA e Europa se tornaram dependentes da China para refino de terras raras, grafite e outros minerais.
  • Risco geopolítico: tensões comerciais e militares (por exemplo, Taiwan, Mar do Sul da China) podem interromper cadeias de suprimento.
  • Corrida tecnológica verde: a descarbonização e a eletrificação global demandam volumes gigantescos de minerais críticos — muitos deles extraídos em países com riscos de instabilidade ou baixa governança ambiental/social.
  • Soberania espacial: o setor espacial é altamente dependente de minerais críticos, e isso é um fator muitas vezes subestimado quando se discute soberania espacial, defesa aeroespacial e a nova corrida tecnológica envolvendo satélites, foguetes e componentes de alta performance.
  • Computação quântica e IA: a computação quântica e a inteligência artificial (IA) também estão profundamente atreladas ao acesso seguro a minerais estratégicos, ainda que por caminhos um pouco diferentes do setor espacial e da defesa tradicional.

O governo Trump, ainda em 2017-2020, já identificava os minerais críticos como “questão de segurança nacional” e lançou ordens executivas para estimular produção e refino interno. Biden ampliou isso com o Inflation Reduction Act e a Defense Production Act, investindo pesadamente em cadeias domésticas de lítio, níquel e terras raras. Na Europa, Japão e Austrália vemos movimentos semelhantes.

4. Por que fundos de investimento estão de olho em minerais críticos?

Os minerais críticos se tornaram uma commodity estratégica, não apenas para transição energética e tecnologia verde, mas também para autonomia militar e soberania industrial. Fundos especializados (privados, soberanos e de pensão) percebem neles um ativo com alta demanda estrutural, pouca oferta diversificada e um prêmio geopolítico.

Para a defesa, o raciocínio é simples: sem terras raras, tungstênio, titânio, níquel ou grafite, não existe produção nacional de mísseis, blindados de última geração, radares AESA, satélites, drones de longo alcance. Ou seja, investir em mineração, refino e cadeias de suprimento desses minerais é investir na base material da capacidade dissuasória de um país.

Então, fundos criam estratégias para:

  • Financiar mineração e processamento doméstico ou aliado.
  • Garantir participações em mineradoras para ter influência geopolítica.
  • Investir em tecnologias de reciclagem ou substituição de materiais críticos.
  • Apoiar empresas da BIDS que desenvolvem aplicações de alta tecnologia dependentes desses insumos.

5. Minerais críticos e o Setor Espacial

o setor espacial é altamente dependente de minerais críticos, e isso é um fator muitas vezes subestimado quando se discute soberania espacial, defesa aeroespacial e a nova corrida tecnológica envolvendo satélites, foguetes e componentes de alta performance.

Afinal, entre outras coisas, o setor espacial combina tecnologias de ponta que exigem materiais ultraleves, resistentes a radiação e temperaturas extremas, e componentes eletrônicos de alta confiabilidade. Alguns exemplos de minerais e metais essenciais:

  • Terras Raras (REE) — usadas em ímãs permanentes para atuadores de precisão, motores elétricos de sistemas de apontamento de antenas e painéis solares orientáveis de satélites.
  • Tungstênio — presente em contrapesos, blindagem contra radiação e pontas de foguetes, pois suporta altas temperaturas sem deformar.
  • Titânio — usado em estruturas de foguetes e satélites por ser leve, resistente e com excelente performance em ambientes extremos.
  • Níquel e superligas — ligas à base de níquel aparecem em bicos injetores de motores-foguete, câmaras de combustão e sistemas que suportam atrito térmico intenso.
  • Cobalto — essencial para ligas especiais e componentes de baterias de alta densidade embarcadas.
  • Gálio, Germânio, Índio — esses metais são base para semicondutores de alta eficiência, fundamentais em células solares de satélites. Muitos satélites em órbita geoestacionária usam painéis solares de arsenieto de gálio (GaAs) ou arsenieto de gálio e índio.
  • Platinas e metais do grupo da platina (PGMs) — catalisadores e sensores em propulsores de precisão, satélites de observação, sistemas de navegação.
  • Grafite — usado em bicos de propulsão sólida e em materiais compostos de carbono-carbono para dissipação térmica.

Onde isso aparece nas atividades espaciais?

Fora diversas outras situações mais específicas, podemos citar aqueles mais evidentes, como:

  • Satélites de comunicação e observação dependem de sistemas elétricos e eletrônicos que exigem semicondutores raros (GaAs, Ge, InP) para operar em ambientes com radiação intensa.
  • Foguetes lançadores precisam de ligas leves e super-resistentes: titânio, níquel, tungstênio e grafite entram em componentes estruturais, bicos e escudos térmicos.
  • Nano e microssatélites, que estão se tornando comuns, ainda demandam os mesmos materiais em miniatura — não há “substituição fácil” porque os requisitos de resistência e durabilidade são os mesmos.
  • Baterias embarcadas (inclusive de satélites militares) dependem de lítio, cobalto, níquel e grafite — sem eles, não há como armazenar energia solar coletada em órbita.
  • Sensores ópticos, câmeras e radares de abertura sintética incluem camadas finíssimas de elementos raros para detecção de imagens e sinais em altíssima resolução.

Por que isso virou preocupação estratégica no setor espacial?

A dependência de minerais críticos para o setor espacial faz com que governos classifiquem minas e cadeias de refino como ativos de segurança nacional. Em decorrência dessa percepção de caráter estratégico, alguns países e atores importantes têm se movimentado no sentido de se posicionarem de uma forma mais assertiva, como podemos ver nos casos abaixo:

  • EUA e União Europeia, por exemplo, colocam semicondutores de arsenieto de gálio, germânio e terras raras como prioritários em seus Critical Raw Materials Act.
  • China, que domina partes significativas da produção de gálio, germânio e terras raras, já sinalizou restrições de exportação em resposta a disputas comerciais — criando risco direto para satélites ocidentais.
  • Grandes players como SpaceX, Airbus Defence & Space, Lockheed Martin têm contratos com fornecedores garantidos desses insumos e, cada vez mais, investem em reciclagem de componentes orbitais para reduzir dependência de novos minerais.
  • No Brasil, o setor espacial (AEB, FAB) está atento a isso: o CDPEB (Política Nacional de Desenvolvimento de Produtos Espaciais) menciona cadeias tecnológicas críticas como parte da soberania aeroespacial — ainda que o país ainda dependa de fornecedores externos para semicondutores de grau espacial.

6. Computação Quântica, IA e Minerais Críticos

A computação quântica e a inteligência artificial (IA) também estão profundamente atreladas ao acesso seguro a minerais estratégicos, mas por caminhos um pouco diferentes do setor espacial e da defesa tradicional.

Computação Quântica x Minerais Críticos

A computação quântica — seja via qubits supercondutores, armadilhas de íons ou semicondutores — exige materiais com altíssima pureza, propriedades magnéticas ou condutoras especiais e estruturas cristalinas que são viabilizadas por minerais críticos.

Alguns exemplos:

  • Ímãs de alta performance feitos de terras raras (neodímio, praseodímio, disprósio) são essenciais para criar campos magnéticos estáveis em certos tipos de computadores quânticos.
  • Niobato de lítio, arseniato de gálio (GaAs) e germânio aparecem como substratos para qubits semicondutores.
  • Supercondutores geralmente usam ligas baseadas em nióbio, elemento em que o Brasil é líder mundial.
  • Alguns dispositivos usam ouro, prata e platina para contatos ultracondutores, porque esses metais são altamente estáveis e bons condutores mesmo em temperaturas criogênicas.
  • Sensores de leitura quântica dependem de materiais raros para manter coerência e evitar ruído quântico.

Portanto, a base física da computação quântica é, em essência, mineralógica. Sem fornecimento estável de metais de altíssima pureza, não há escala comercial viável.

E a Inteligência Artificial?

Sejamos claros, diretos e honestos: a IA em si — enquanto software — não depende de minerais críticos. Mas seu hardware, sim!

E por quê? Vejamos:

  • A IA de ponta usa processadores especializados (GPUs, TPUs, NPUs) feitos com semicondutores avançados. A fabricação desses chips exige silício ultra puro, mas também gálio, germânio, índio, usados em semicondutores III-V, que são essenciais para aplicações de alto desempenho em IA, telecomunicações e computação em nuvem.
  • Metais raros são necessários para sensores LIDAR, câmeras de alta resolução, sistemas de radar e outros hardwares de coleta de dados que alimentam a IA, por exemplo, em veículos autônomos.
  • Servidores de grande porte, que rodam modelos de IA generativa como o GPT, exigem centros de dados com sistemas de refrigeração e condutores elétricos pesados — aí entram cobre, alumínio, metais de solda especiais.
  • A corrida para novos “chips AI” (ex.: NVIDIA, AMD, Huawei, Intel) faz do controle do acesso a certos minerais estratégicos uma peça de poder geopolítico, pois China, EUA, Europa e Coreia do Sul disputam cadeias de suprimento confiáveis.

Por que isso também virou alvo de segurança nacional?

Hoje, chips avançados são tratados como arma estratégica — basta ver as restrições dos EUA à exportação de semicondutores de IA para a China. Objetivamente:

  • Países que não controlam insumos minerais dependem de cadeias longas e frágeis, vulneráveis a restrições, sanções ou crises logísticas.
  • O gargalo maior não é extrair — é refinar com grau de pureza nanoeletrônico, algo que poucos players dominam (Taiwan, Coreia, Japão, parte da Europa).
  • Para computação quântica, cada qubit funcional demanda materiais caríssimos, instalações criogênicas e fornecedores ultra especializados. Ou seja, trata-se de um setor onde a soberania mineral alavancada pela sua capacidade de P&D resultam em real poder estratégico.

Por isso, fundos soberanos, agências de defesa e grupos de private equity tecnológico olham para mineração crítica como parte do ecossistema de IA/Quântica, pois quem controla insumo + know-how + cadeia de refino constrói o “choke point” do resto do mundo.


Resumindo …

Diante de todo o exposto, e em essência, é fácil perceber que quem controla os minerais críticos controla o futuro das tecnologias de energia limpa, defesa e digitalização. A disputa por esses insumos já não é apenas uma questão de competitividade econômica — ela determina a capacidade de um país proteger sua soberania, projetar poder tecnológico e garantir autonomia em setores vitais como inteligência artificial, computação quântica, mobilidade elétrica, satélites e indústria bélica de alta tecnologia.

Por isso, vemos hoje uma corrida silenciosa, mas intensa, para diversificar fornecedores, criar cadeias de suprimento locais ou aliadas, desenvolver tecnologias de reciclagem e estabelecer acordos de cooperação e offset que atrelam grandes contratos de defesa à estruturação de minas, refinarias e plantas de processamento dentro de territórios considerados seguros.

Nesse contexto, o Brasil, com suas vastas reservas de minerais estratégicos — do nióbio e grafite ao lítio e às terras raras —, pode desempenhar um papel-chave não apenas como fornecedor de commodities, mas como protagonista na construção de cadeias de valor integradas, articulando suas riquezas naturais com inovação industrial, desenvolvimento de tecnologias dual-use e fortalecimento de sua Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Entender e agir sobre essa dinâmica é, hoje, mais do que uma oportunidade: é uma necessidade estratégica para qualquer nação que queira ter voz — e força — na nova ordem econômica e de segurança global que se desenha.



Descubra mais sobre InvestDefesa.org

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.