Da sucata de tanques da Segunda Guerra distribuída na Guerra Fria aos drones reciclados no Oriente Médio, a história militar é recheada de exércitos periféricos operando com tecnologia de prateleira vencida. Todavia, hoje em dia a sucata não é mais de aço — é de algoritmo.
Introdução
Da sucata de tanques deixada pelos aliados após a Segunda Guerra Mundial aos caças de segunda mão que ainda cruzam os céus de muitos países em desenvolvimento, a história militar revela um padrão persistente: na ausência de poder econômico e tecnológico para projetar e produzir sistemas próprios, nações periféricas acabam adquirindo o que sobra das potências. Foi assim no pós-guerra, durante a Guerra Fria e continua sendo em muitos aspectos hoje.
Só que, no século XXI, a natureza do poder militar mudou. A força não está mais apenas na blindagem ou na envergadura de asas — está na inteligência que governa cada sensor, cada míssil, cada drone. E essa inteligência é digital, invisível, intangível — mas decisiva. Surge então uma pergunta inquietante: estaremos condenados a importar não apenas o hardware usado, mas também algoritmos intencionalmente limitados, enviesados ou até sabotados?
No teatro de operações do futuro, a obsolescência pode não estar na carcaça, mas sim no algoritmo que faz a máquina “pensar”.
Segurança cibernética: primeiro núcleo da soberania atual
Já há pelo menos duas décadas, a ideia de segurança e soberania nacionais deixou de se restringir ao território físico ou ao volume de blindados estacionados em quartéis. Em um mundo cada vez mais interconectado, o campo de batalha digital tornou-se tão decisivo quanto as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas. A capacidade de uma nação dissuadir ou neutralizar ameaças cibernéticas hoje faz parte do seu poder real de defesa — não apenas como complemento, mas como eixo central de sua prontidão estratégica.
Nesse ambiente, as mais robustas operações de defesa e ataque cibernéticos são impensáveis sem o uso massivo de Inteligência Artificial. São algoritmos capazes de processar, em milissegundos, fluxos gigantescos de dados, identificar vulnerabilidades, reagir a intrusões, simular contra-ataques e executar bloqueios automatizados antes que humanos sequer detectem a ameaça. Essa autonomia operacional da IA eleva o patamar da dissuasão digital a um nível inédito na história militar. Hoje, a segurança de redes de satélites, sistemas de comando e controle e bancos de dados estratégicos (incluindo os financeiros) depende de máquinas que “pensam” e agem muito mais rápido do que qualquer operador humano poderia fazer.
O que agrava ainda mais o cenário é que os ataques cibernéticos de alto impacto não são monopólio de Forças Armadas regulares. Grupos criminosos organizados, organizações terroristas transnacionais e até hacktivistas ideológicos disputam espaço no mesmo campo invisível, muitas vezes empregando técnicas avançadas, algoritmos de IA abertos ou comprados no mercado negro digital. O resultado é um ambiente de ameaça permanente, onde a resposta automatizada apoiada por IA é, muitas vezes, a única forma viável de contenção. Para países que não dominam a tecnologia que estrutura essa reação, cada nova brecha se torna um convite à exploração de vulnerabilidades.
Por isso, a soberania digital e a segurança cibernética não são apenas um problema técnico — são uma questão de Estado, que redefine o conceito de dissuasão clássica. Não basta ter tanques na fronteira se o coração digital do Estado — bancos de dados militares, comunicações seguras, cadeias logísticas automatizadas, sistema financeiro — estiver à mercê de códigos controlados do exterior.
A pergunta, portanto, vai além de comprar sistemas mais modernos: passa por saber quem controla o cérebro algorítmico que decide, em frações de segundo, se nossas infraestruturas críticas resistirão a um ataque ou colapsarão em silêncio.
O passado que não passa: a dependência tecnológica como regra
A história recente das Forças Armadas do Brasil — e de vários outros países latino-americanos, africanos e asiáticos — mostra como a dependência tecnológica foi, e em grande parte ainda é, a base de seus arsenais. Na década de 1960, tanques M41 Walker Bulldog chegaram ao Brasil já com décadas de uso em solo estrangeiro. Em seguida, os lendários caças F-5 Freedom Fighter foram adquiridos nos anos 1970 e, mesmo com programas de modernização e retrofit, voam até hoje — exemplo claro de como a atualização local tenta estender a vida útil de plataformas que já passaram do auge tecnológico.
A Marinha segue a mesma lógica: fragatas, corvetas e submarinos usados são comprados, revitalizados, operados até o limite técnico. Para muitas nações em desenvolvimento, esse arranjo faz sentido orçamentário. Desenvolver, fabricar e manter sistemas de ponta exige capacidade industrial, base tecnológica, mão de obra altamente qualificada e recursos financeiros vultosos — itens escassos em países que lutam para equilibrar demandas sociais e orçamento de defesa. O problema é que esse modelo de dependência, quando transposto para a era digital, pode ter consequências muito mais profundas e difíceis de detectar.
O presente (e o futuro próximo): a IA como nova espinha dorsal militar
Hoje, não é exagero dizer que sem algoritmos não há guerra moderna. Cada passo tático e estratégico está se tornando, de forma acelerada, dependente de sistemas baseados em IA. São algoritmos que analisam imagens de satélite em tempo real, interpretam fluxos de comunicação, antecipam padrões de movimento, calculam trajetórias balísticas com maior precisão e alimentam a tomada de decisão de comandantes.
Um exemplo claro é o uso de drones autônomos e semi-autônomos, capazes de patrulhar fronteiras ou realizar ataques de precisão com intervenção humana mínima. A guerra eletrônica também evolui apoiada em IA: sistemas que varrem o espectro de rádio, identificam sinais inimigos, interferem e desativam comunicações rivais sem ação manual. Na ciberdefesa, algoritmos monitoram redes militares 24/7 para detectar anomalias, comportamentos suspeitos e invasões em tempo real. Países como Estados Unidos, China, Israel, Reino Unido e Coreia do Sul investem bilhões de dólares anualmente em Pesquisa & Desenvolvimento para garantir que o núcleo lógico — o cérebro algorítmico da máquina militar — seja cada vez mais autônomo, confiável e invulnerável a manipulações externas.
Enquanto isso, países como o Brasil avançam, mas em ritmo desigual. Embora existam iniciativas pontuais — como o desenvolvimento de satélites próprios, o SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) e programas de cibersegurança em unidades de elite — a base industrial de algoritmos 100% nacionais ainda é limitada. E o grande risco é continuar avançando no hardware (comprando aeronaves, veículos, sistemas de vigilância) enquanto a “mente” desses sistemas permanece importada e opaca.
O risco invisível: vieses, backdoors e a IA “limitada”
Quando se fala em armamento convencional, tudo pode ser inspecionado: calibres, blindagem, autonomia de voo ou alcance de mísseis. Mas quando se trata de algoritmos de IA, a inspeção se torna quase impossível sem um profundo domínio técnico e acesso irrestrito ao código-fonte. E é justamente aí que mora a vulnerabilidade: um sistema de IA pode conter bias intencionais, isto é, vieses introduzidos para restringir a eficácia em determinados contextos ou cenários de uso. Pode conter backdoors — portas de acesso ocultas, que permitem ao fornecedor monitorar ou até controlar remotamente o comportamento do sistema.
Um drone de vigilância equipado com IA, por exemplo, pode ser configurado para registrar e enviar dados sensíveis a servidores estrangeiros. Um sistema de comando e controle autônomo pode “desligar” certas funcionalidades sob ordem de quem controla o núcleo algorítmico. E o mais perigoso: tudo isso pode passar despercebido até o momento em que for tarde demais. Os escândalos revelados por Edward Snowden mostraram como dispositivos de comunicação civil e militar já foram intencionalmente adulterados para espionagem. Chips, roteadores, antenas — todos podem carregar códigos ocultos. No campo militar, onde cada segundo é vital, essa sabotagem digital silenciosa pode ser mais devastadora que uma bomba.
Além disso, existe o risco da IA “limitada”: importar versões deliberadamente limitadas, com desempenho inferior ao disponível internamente para as próprias forças armadas do país fornecedor. Esse é um risco difícil de auditar, pois envolve parâmetros ocultos, conjuntos de dados restritos e módulos de treinamento de aprendizado de máquina inacessíveis ao cliente. Para o país comprador, resta apenas operar confiando no invisível — ou investir pesado em auditoria, se tiver quadros capacitados para isso.
E o Brasil? Estamos preparados?
Nos últimos anos, o Brasil deu passos importantes para reduzir a dependência estrangeira em áreas estratégicas. O Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC) é um marco da tentativa de garantir autonomia em comunicações militares seguras. O SISFRON é um caso notável de integração de sensores e sistemas de vigilância em território nacional. No campo da ciberdefesa, a criação de unidades especializadas dentro do Exército e da Marinha mostra que o tema já entrou na agenda.
Contudo, falta densidade industrial para IA de uso militar em escala. Universidades produzem conhecimento, mas muitas vezes desconectadas das demandas concretas da defesa. Startups e empresas de tecnologia tentam desenvolver algoritmos de análise de imagens, reconhecimento facial e processamento de dados para segurança pública — mas ainda é tímida a integração com as Forças Armadas para projetos de aplicação dual (civil e militar). Além disso, faltam protocolos robustos de auditoria, exigências legais de transferência de tecnologia de código-fonte, políticas de formação de mão de obra especializada em engenharia reversa de sistemas complexos. Se não houver uma política industrial e tecnológica clara, o Brasil corre o risco de se tornar um operador sofisticado de hardware estrangeiro — mas sempre dependente do núcleo lógico externo.
O dilema: desenvolver, comprar ou cooperar?
Para nações com restrições orçamentárias, a autonomia total é praticamente impossível no curto prazo. A solução passa por equilibrar compra, desenvolvimento local e cooperação internacional estratégica. É essencial escolher parceiros confiáveis, que ofereçam não só o produto acabado, mas também transferência real de tecnologia e formação de quadros locais. Exemplos existem: Israel, Coreia do Sul e Turquia são países que, mesmo com histórico de dependência, optaram por absorver tecnologia estrangeira, criar hubs de inovação local e hoje exportam sistemas complexos com crescente grau de autonomia.
Para o Brasil, o recado é claro: não basta comprar drones ou mísseis inteligentes — é preciso formar engenheiros, matemáticos, criptógrafos, auditores de IA. É preciso exigir cláusulas contratuais que garantam acesso irrestrito a parâmetros críticos de operação e manter capacidade de verificação contínua. Sem isso, a nação pode seguir avançando em números de peças e armamentos, mas continuar vulnerável a desligamentos súbitos, alucinações de IA, vazamentos de dados e restrições invisíveis que minam a credibilidade da dissuasão militar.
Conclusão-provocação
No século XX, tanques, aviões e navios eram símbolos de poder. No século XXI, quem controla o algoritmo que comanda tanques, aviões e navios define quem vence — ou quem se submete. Não basta ter mísseis se, no momento decisivo, o cérebro digital se recusar a dispará-los. Não basta ter drones se um backdoor desativa seu piloto automático quando mais se precisa dele. O Brasil está disposto a aceitar esse risco invisível? Ou vai investir pesado em uma base industrial de IA de Defesa, capaz de garantir que o poder de decisão esteja sempre em mãos nacionais? No fim, a pergunta que fica é simples, mas incômoda: seremos apenas operadores de máquinas brilhantes — ou donos do raciocínio que faz essas máquinas guerrearem?
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