A Europa está vivenciando uma inflexão histórica em sua política de segurança e defesa. Essa transformação foi catalisada por fatores geopolíticos complexos, sobretudo a invasão russa da Ucrânia em 2022 e os desdobramentos contínuos do conflito, que expuseram vulnerabilidades estratégicas críticas no continente. Além disso, a pandemia da COVID-19 evidenciou a fragilidade das cadeias globais de suprimentos, levando os países europeus a repensarem sua dependência externa em setores considerados sensíveis, como o de defesa. Assim, o impulso por investimentos em capacidades militares e industriais tornou-se também uma resposta à necessidade de garantir autonomia estratégica e resiliência econômica.
Estimulados por esse contexto, os países europeus vêm abandonando o paradigma de contenção orçamentária que, por décadas, moldou suas decisões estratégicas. Em seu lugar, emerge uma nova doutrina: segurança nacional como ativo econômico e instrumento de soberania — e não mais como centro de custo a ser limitado pelas regras fiscais convencionais. Essa virada já está sendo chamada de “superciclo militar europeu” — um ciclo de investimentos prolongados e crescentes, com implicações duradouras para a indústria, o emprego e a ordem geopolítica global.
Uma ruptura de paradigma: da austeridade à securitização dos investimentos
O termo “superciclo”, aqui, não está sendo usado de maneira leviana. Ele implica não apenas um aumento pontual nos gastos, mas uma transição sistêmica, em que os investimentos em defesa deixam de ser reativos e passam a ocupar lugar central no planejamento estatal de longo prazo. Relatório recente da Reuters aponta que o índice Stoxx Europe TMI Aerospace & Defense registrou alta superior a 40% em um ano, sinalizando a confiança dos mercados no caráter estrutural dessa tendência. Lembrando que o Stoxx Europe TMI Aerospace & Defense é um subíndice setorial europeu que acompanha o desempenho das principais empresas listadas nos mercados europeus nos setores aeroespacial, de defesa e segurança.
Mais do que compras emergenciais, essa tendência reflete uma verdadeira reorganização da base industrial e tecnológica da defesa europeia. Até aqui, algo relativamente normal e cíclico. Todavia, o que torna esse movimento particularmente relevante é o seu rompimento com o dogma da disciplina fiscal. Países tradicionalmente avessos ao endividamento, como Alemanha e Países Baixos, agora debatem abertamente a flexibilização de metas fiscais para viabilizar orçamentos militares mais robustos. Há um deslocamento claro do eixo da responsabilidade fiscal para a “responsabilidade estratégica”. Preservar a defesa e segurança nacionais tornou-se justificativa legítima para ampliar déficits públicos — uma lógica que, até pouco tempo atrás, seria politicamente impensável.
A defesa como investimento de futuro e driver econômico
À medida que os gastos com defesa se expandem para além do piso de 2% do PIB recomendado pela OTAN — com previsões de que cheguem a 3,5% ou até 5% em alguns casos — o conceito de defesa como “investimento estratégico” ganha corpo. Trata-se de uma abordagem que enxerga o setor não apenas como escudo contra ameaças externas, mas também como um catalisador de inovações com aplicação civil. Tecnologias originalmente desenvolvidas para uso militar — como sistemas de navegação por satélite, materiais avançados e sensores autônomos — estão sendo adaptadas para setores como transporte, agricultura de precisão, telecomunicações e logística. O investimento massivo em defesa impulsiona centros de pesquisa e desenvolvimento que, por sua vez, alimentam cadeias produtivas civis, gerando spillovers tecnológicos com efeitos positivos sobre a produtividade e a competitividade da economia em geral.
Alemanha, França, Reino Unido e países do Leste Europeu estão promovendo verdadeiros “pacotes industriais de defesa”, com repasses bilionários para empresas como Rheinmetall, Leonardo, BAE Systems e Dassault. Os impactos já se fazem sentir: novos polos de produção estão sendo criados, cadeias de suprimento nacionalizadas, programas de P&D fortalecidos e milhares de empregos industriais sendo gerados. A autonomia estratégica, tão discutida nos fóruns europeus desde o Brexit e da crise da COVID-19, encontrou no setor de defesa um vetor realista de materialização. E, mais do que isso, uma linguagem politicamente palatável, já que segurança e soberania são bandeiras capazes de unir desde liberais fiscalistas até nacionalistas intervencionistas.
Riscos da militarização fiscal: dívida, prioridades e estabilidade
Embora o superciclo militar europeu represente uma resposta compreensível e estratégica ao atual cenário geopolítico, ele também levanta preocupações relevantes no campo da política econômica e da estabilidade regional. O aumento expressivo e persistente dos gastos com defesa, se não for acompanhado de reformas estruturais e de uma governança fiscal eficaz, pode comprometer a sustentabilidade das finanças públicas. Em contextos de alta dívida e pressões sociais, essa priorização orçamentária pode provocar o deslocamento de recursos de áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, gerando tensões políticas internas e desequilíbrios sociais duradouros.
O caso do Reino Unido ilustra esse dilema com clareza. O governo britânico anunciou recentemente uma revisão estratégica de defesa que prevê o aumento dos gastos militares para 3% do PIB entre 2029 e 2034. No entanto, ao manter suas regras fiscais atuais — que limitam os investimentos públicos a um crescimento real anual de apenas 1,3% até 2030 — o aumento da despesa militar tende a ocorrer à custa de outros investimentos não relacionados à defesa. O Institute for Fiscal Studies calcula que, sem revisão nas regras fiscais, a melhoria da capacidade militar do Reino Unido poderá implicar deterioração da infraestrutura civil e de serviços públicos essenciais, como saúde e educação.
Uma alternativa debatida na Europa, e considerada mais benéfica no longo prazo, é o financiamento desses aumentos por meio da emissão adicional de dívida pública — como propõe a iniciativa “Readiness 2030” da União Europeia. Esse caminho exige uma reforma das regras fiscais autoimpostas. Mas os defensores argumentam que déficits maiores agora, se direcionados a investimentos produtivos, podem manter as razões dívida/PIB sob controle, criar empregos e promover crescimento sustentável. A reação dos mercados à proposta do Readiness 2030 e ao pacote de infraestrutura da Alemanha sugere que investidores estão dispostos a aceitar déficits adicionais desde que os recursos sejam bem aplicados. O maior risco, portanto, não está nos déficits em si, mas na produtividade dos investimentos realizados.
“A reação dos mercados à proposta do Readiness 2030 e ao pacote de infraestrutura da Alemanha sugere que investidores estão dispostos a aceitar déficits adicionais desde que os recursos sejam bem aplicados.”
Esse debate europeu contrasta com o cenário brasileiro, onde o espaço fiscal é ainda mais restrito e a capacidade de gerar superávits primários sustentáveis permanece frágil. Para o Brasil, embarcar em um ciclo de rearmamento sem uma política industrial clara e sem fontes alternativas de financiamento poderia representar um risco substancial à sustentabilidade macroeconômica. Por isso, torna-se ainda mais necessário que o país explore mecanismos inovadores de financiamento — como fundos de investimento, parcerias com bancos de desenvolvimento e instrumentos como a tokenização de ativos — de modo a evitar o trade-off entre segurança nacional e serviços públicos. Ao contrário da Europa, onde há maior confiança de mercado e um ecossistema financeiro de defesa mais consolidado e focado em apoiar as empresas de sua BIDS, o Brasil precisa demonstrar que possui políticas efetivas de segurança e defesa nacionais, de modo que seus investimentos no setor tenham não apenas um elevado apelo de “retorno estratégico”, mas também de externalidades econômicas e sociais positivas.
Brasil: Lições e caminhos possíveis
Como sempre, diante das transformações em curso na Europa, o Brasil encontra-se em um momento estratégico para repensar sua política de defesa sob uma ótica mais integrada com as agendas de desenvolvimento, inovação e inserção internacional. A principal lição europeia é clara: segurança nacional não é apenas uma função do Estado, mas um vetor de política industrial e tecnológica. Nesse sentido, o Brasil precisa deixar de tratar os gastos com defesa como mera despesa e passar a encará-los como investimentos de Estado, com efeitos multiplicadores sobre a economia e sobre sua real capacidade autônoma de dissuasão.
Contudo, diferentemente dos países europeus, o Brasil opera sob um regime fiscal mais restritivo e uma margem de endividamento mais sensível. Isso exige criatividade institucional e financeira. O país deve avançar na criação de fundos estratégicos de longo prazo, alimentados por fontes diversas — desde recursos orçamentários vinculados até capital privado, nacional e internacional. Também é essencial estruturar mecanismos de financiamento baseados em ativos reais, como a tokenização de ativos e sistemas logísticos das Forças Armadas, ou projetos de alto valor agregado desenvolvidos por empresas da BIDS.
Além disso, o Brasil precisa se posicionar de maneira mais ativa nas cadeias globais de defesa. Isso envolve tanto a exportação de produtos estratégicos (como radares, aeronaves, veículos blindados e sistemas de comunicação), quanto a formação de parcerias tecnológicas com nações da OTAN interessadas em diversificação de fornecedores. A adoção de cláusulas de offset e transferência de tecnologia em contratos internacionais deve ser feita de forma mais coordenada e focada.
Enfim, o momento exige uma nova ambição estratégica: desenvolver um modelo brasileiro de soberania e inovação em defesa, financeiramente sustentável e inserido nas principais tendências globais. Ignorar esse movimento significaria não apenas perder oportunidades, mas comprometer a segurança nacional em um mundo onde os riscos geopolíticos não param de crescer.
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