Defesa e ESG: A Nova Fronteira dos Investimentos Sustentáveis


Como a indústria de defesa está sendo reavaliada no contexto dos investimentos ESG, impulsionada por mudanças geopolíticas, realismo financeiro e novas interpretações éticas sobre segurança global.


1. Um Paradigma em Transformação: ESG e a Indústria de Defesa

Durante décadas, a indústria de defesa ocupou um lugar desconfortável no universo ESG (Environmental, Social and Governance). Amplamente associada à produção de armas e à violência, ela foi frequentemente excluída de carteiras sustentáveis por princípios éticos e sociais, mesmo quando demonstrava boas práticas de governança e inovação tecnológica. No entanto, esse paradigma vem sendo revisto, impulsionado por uma nova realidade geopolítica em que a paz e os direitos civis passam, cada vez mais, pela capacidade de um país se defender.

A guerra na Ucrânia, os avanços militares da China e o crescente protagonismo de regimes autoritários mostraram que a estabilidade internacional exige mais do que diplomacia: ela precisa de dissuasão credível e cooperação militar entre democracias. Isso levou gestores e analistas a incluírem a segurança nacional como componente legítimo da sustentabilidade social (o “S” do ESG). Em outras palavras, como proteger o meio ambiente, a diversidade e os direitos humanos sem garantir primeiro a integridade territorial e institucional das democracias?

Assim, nasce uma nova abordagem ESG que admite que a indústria de defesa — especialmente aquela vinculada a Estados democráticos e acordos internacionais de não proliferação — pode ser não apenas compatível com os princípios ESG, mas parte fundamental de sua concretização no mundo real.


2. O Caso da PFA: Um Exemplo de Reavaliação Estratégica

O reposicionamento do fundo de pensão PFA, da Dinamarca, se tornou um marco simbólico dessa mudança de postura. Tradicionalmente restritivo com ativos do setor de defesa, o fundo anunciou, em maio de 2025, que voltaria a investir em empresas como Airbus, Thales, BAE Systems e Boeing. O argumento central foi claro: em tempos de ameaça à ordem internacional, “a segurança é um pré-requisito para qualquer desenvolvimento sustentável”.

Essa reviravolta ética e estratégica mostra que os fundos institucionais não estão mais confortáveis com uma neutralidade ingênua. A exclusão total de ativos de defesa — sem considerar o contexto em que essas empresas operam — passou a ser vista como um ato politicamente irresponsável e financeiramente míope. O PFA deixou claro que continuará excluindo empresas envolvidas com armas nucleares ou violações de direitos humanos, mas que não vê mais justificativa para vetar companhias que fornecem tecnologias de defesa convencionais a países aliados.

A mensagem da PFA ecoa entre diversos outros fundos nórdicos e holandeses, que hoje revisitam seus critérios ESG à luz de um mundo menos estável e mais polarizado. O exemplo dinamarquês reforça a ideia de que o investidor responsável é aquele que protege o futuro — inclusive o direito de existir de suas sociedades.


3. O Crescimento dos ETFs de Defesa e o Interesse dos Investidores ESG

O reflexo mais evidente dessa mudança está na impressionante performance dos ETFs de defesa. Apenas nos primeiros meses de 2025, foram lançados mais de uma dúzia de ETFs especializados, captando US$ 6,2 bilhões, contra apenas US$ 1,1 bilhão no mesmo período de 2024. Muitos deles incluem empresas que estavam fora do radar ESG até recentemente, como Rheinmetall, Leonardo, Saab e Northrop Grumman.

Esse movimento é explicado por dois fatores principais: o desempenho financeiro dessas empresas, que apresentaram valorização média de 42% no índice europeu STOXX Aerospace and Defence; e a reclassificação ética de suas atividades, agora vistas como parte de uma cadeia produtiva essencial à segurança global. Isso atrai não apenas investidores em busca de oportunidades, mas também fundos soberanos, previdenciários e endowments, que tradicionalmente carregam fortes restrições ESG.

Importante notar que, em muitos desses ETFs, houve uma revisão nos critérios de exclusão. As gestoras passaram a diferenciar empresas envolvidas em tecnologias ofensivas de uso indiscriminado daquelas que produzem sistemas de defesa, ciberproteção e logística para Estados-membros da OTAN ou da ONU. O argumento central é que “não existe planeta verde sob um céu de mísseis” — e que a proteção da ordem internacional precisa de instrumentos concretos, inclusive financeiros.


4. Desafios e Considerações Éticas na Integração de Defesa e ESG

Apesar das mudanças, a reintegração da defesa no universo ESG ainda encontra resistências relevantes. Instituições como a Robeco e alguns braços da AXA continuam a vetar totalmente investimentos em empresas da indústria bélica, com base em princípios de objeção de consciência e doutrinas pacifistas. A heterogeneidade entre reguladores nacionais e internacionais também dificulta a construção de um consenso, gerando conflitos entre fundos que operam em múltiplas jurisdições.

Além disso, existem desafios práticos: como medir o “impacto positivo” de uma empresa que produz armas, mesmo que apenas para fins defensivos? Como garantir transparência em contratos militares classificados? E como evitar que essa reclassificação seja usada para justificar investimentos em regimes autoritários?

Essas questões exigem um novo tipo de governança: uma ética aplicada à segurança, baseada em princípios claros de alinhamento democrático, transparência em cadeia de suprimentos e responsabilidade no uso da força. A defesa pode, sim, ser ESG — desde que seja regida por valores e compromissos verificáveis, e não apenas por performance de mercado.


5. Implicações para o Brasil e a Base Industrial de Defesa

Para o Brasil, essa mudança global representa mais uma janela de oportunidade estratégica. A Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS), ainda altamente dependente do Estado e de financiamentos públicos, pode se beneficiar ao incorporar práticas ESG em sua governança e se posicionar como parte de uma cadeia global de produção responsável e aliada aos valores democráticos.

Empresas de defesa (ED) e estratégicas de defesa (EED), muitas das quais operam com foco em dissuasão e tecnologias dual-use, poderiam atrair esses investidores institucionais, que estão ajustando seus paradigmas, se ajustassem seus relatórios, políticas de compliance e compromissos ambientais às diretrizes ESG. Além disso, o Brasil poderia propor um marco legal específico para fundos de defesa com critérios ESG, o que permitiria a atração desses capitais internacionais que hoje buscam alternativas ao modelo norte-americano ou europeu.


6. Conclusão: Rumo a uma Ética da Defesa e Segurança Nacionais

A reaproximação entre a indústria de defesa e os princípios ESG não representa uma contradição, mas sim uma evolução necessária frente a um mundo mais instável e assimétrico. O que está em jogo não é apenas o retorno financeiro ou a reputação dos fundos de pensão, mas sim a própria possibilidade de manutenção das democracias, da paz e dos direitos humanos que sustentam o ideal ESG em sua origem. Ao reconhecer que a segurança é um pré-requisito para qualquer sustentabilidade duradoura, investidores passam a ver a indústria de defesa não mais como um mal necessário, mas como um pilar da civilização moderna — desde que operando com responsabilidade, transparência e alinhamento democrático.

Para o Brasil, que detém uma base industrial de defesa com vocação dual e crescente capacidade de inovação, esse novo paradigma deve ser lido como uma convocação. É hora de posicionar a BIDS não apenas como fornecedora de produtos militares, mas como agente de estabilidade regional, parceira de democracias ocidentais e destinatária legítima de capital sustentável. Ignorar esse movimento seria abdicar da chance de integrar o Brasil às novas cadeias globais de segurança com responsabilidade. A transição já começou — cabe ao Brasil decidir se será espectador ou protagonista.


Referências

Livro: Ecossistema Financeiro da Indústria de Defesa do Brasil
Ecossistema Financeiro da Indústria de Defesa do Brasil – Um Guia Fundamental


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