Um novo artigo publicado pelo portal norte-americano Breaking Defense no dia 10 de maio de 2025 (“US Special Ops eye unmanned vessels with missiles after purported Ukrainian strike”) oferece pistas importantes sobre o futuro das operações navais não tripuladas. A publicação destaca o interesse crescente do Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (USSOCOM) por embarcações não tripuladas armadas com mísseis, mas chama atenção, sobretudo, por mencionar o desenvolvimento de uma capacidade “marsupial”. Embora o termo possa soar inusitado à primeira vista, sua origem metafórica revela uma revolução tática e tecnológica em curso.
O que é uma capacidade marsupial no domínio militar?
Inspirado nos mamíferos marsupiais, como o canguru — que carrega seus filhotes em uma bolsa —, o conceito militar de capacidade marsupial descreve uma plataforma-mãe (geralmente um drone maior, aéreo, naval ou terrestre) que transporta, lança e comanda plataformas menores. Essas plataformas subordinadas podem ser drones de menor porte, sensores, cargas úteis especializadas ou mesmo munições inteligentes.
No contexto naval, isso pode significar um drone de superfície ou submarino não tripulado, operando de forma autônoma, que leva em seu interior veículos menores não tripulados com missões específicas: reconhecimento, interferência eletrônica, ataque de precisão, guerra antissubmarino ou sabotagem. O objetivo é simples, mas potente: aumentar a modularidade, autonomia, alcance tático e, sobretudo, a capacidade de sobrevivência dos sistemas em ambientes hostis.
A aplicação mais evidente está nas ações navais assimétricas, como as protagonizadas por drones de superfície ucranianos no Mar Negro contra navios da Frota do Mar Negro russa. No entanto, a capacidade marsupial leva esse conceito a um novo patamar, introduzindo autonomia coordenada e escalável, o que permite a uma única unidade executar missões múltiplas, simultaneamente ou em cadeia.
Qual a diferença para abordagens como “enxame de drones” ou um “porta aviões”?
A abordagem “marsupial”, quando aplicada a sistemas de defesa, especialmente em plataformas navais não tripuladas, representa uma nova camada de modularidade operacional, e embora compartilhe alguns elementos com conceitos como “enxame de drones” e “porta-aviões”, ela se diferencia em pontos-chave fundamentais — tanto do ponto de vista tecnológico quanto estratégico.
1. Diferença em relação ao conceito de “enxame de drones”
O conceito de “enxame” (swarm) refere-se a grupos de drones (geralmente homogêneos e de pequeno porte) que operam de forma coordenada, frequentemente com autonomia distribuída e foco em cooperação massiva. Swarms podem ser lançados de uma única plataforma ou múltiplas, e a ênfase está no comportamento emergente do grupo, inspirado em sistemas biológicos como formigas ou abelhas.
A capacidade marsupial, por outro lado, é hierárquica e modular, onde um veículo “mãe” mais complexo e resistente transporta fisicamente drones menores ou cargas úteis específicas e as libera de maneira controlada, podendo manter algum grau de comando e supervisão sobre suas missões. É um modelo mais verticalizado, sem depender da inteligência coletiva dos drones subordinados, mas sim da inteligência embarcada do veículo principal.
Além disso, a liberação dos drones subordinados pode ser sequencial, condicional ou combinada, permitindo maior flexibilidade de missão (por exemplo: reconhecimento → ataque → avaliação de danos).
2. Diferença em relação a um porta-aviões
O porta-aviões é o arquétipo clássico de plataforma de lançamento de sistemas tripulados (aviões), capaz de projetar poder de forma global. No entanto, é uma plataforma altamente dependente de apoio logístico, tripulação numerosa, e proteção de escoltas, sendo, portanto, um ativo estratégico de grande escala e de altíssimo custo.
O conceito marsupial, embora se assemelhe na lógica de “veículo lançador de vetores secundários”, opera em uma escala tática, mais descentralizada e autônoma. Ele visa ser mais furtivo, descartável se necessário, e adaptável a diferentes teatros de operações, inclusive ambientes negados ou litorâneos. Em vez de operar como base para aviação de longo alcance, um sistema marsupial pode lançar drones aquáticos, subaquáticos, sensores ou munições inteligentes, com foco em operações de negação de área, sabotagem ou vigilância persistente.
3. O diferencial essencial: modularidade tática autônoma
O que diferencia decisivamente a capacidade marsupial é sua aplicação de modularidade autônoma tática com propósito específico, permitindo que uma única plataforma conduza operações múltiplas com diferentes vetores, de forma autossuficiente. Isso é possível graças à convergência de tecnologias como:
- IA embarcada para coordenação de subdrones;
- Arquiteturas abertas de sistemas de missão (plug-and-play de sensores e armas);
- Propulsão e comunicações seguras com baixa assinatura;
- Capacidade de logística reversa (alguns subdrones podem retornar à “bolsa” do drone-mãe).
Em resumo, o modelo marsupial não visa apenas multiplicar a presença como o enxame, ou projetar poder como o porta-aviões, mas sim combinar mobilidade, surpresa, independência e adaptabilidade num pacote que responde melhor às exigências da guerra de 5ª geração — onde informação, autonomia e tempo de reação valem mais do que volume ou massa.
A EMGEPRON e o Projeto Suppressor: uma semente brasileira?
No Brasil, um projeto que pode — ao menos em tese e com as devidas adaptações — ser reinterpretado à luz do conceito marsupial é o Projeto Suppressor, conduzido pela EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais). Trata-se de uma iniciativa voltada ao desenvolvimento de um sistema de superfície não tripulado armado, com capacidade de realizar operações de patrulha, dissuasão e, eventualmente, ataque, em apoio às operações navais convencionais da Marinha do Brasil.
Embora o Suppressor, em sua configuração atual, não esteja explicitamente vinculado à ideia de lançar ou comandar drones menores, nada impede que esse projeto seja expandido em uma arquitetura do tipo “drone-mãe”, com capacidade de liberação de cargas úteis móveis, drones submersíveis ou embarcações menores com finalidades específicas.
A vantagem dessa abordagem seria multiplicar os efeitos de combate e vigilância de uma única unidade, reduzindo o risco humano e otimizando recursos. Isso também abriria a possibilidade de integração com conceitos mais amplos de “sistemas de sistemas”, já previstos nas doutrinas modernas de guerra em rede e guerra centrada em informação.
O valor orçamentado para o Projeto Suppressor, conduzido pela EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais), é de R$ 20 milhões, conforme consta no Plano Plurianual (PPA) 2024–2027, no Anexo VIII – Investimentos das Estatais Não Dependentes.
O contrato para a construção da primeira unidade do USV Suppressor foi firmado em fevereiro de 2024 entre a EMGEPRON e a startup brasileira TideWise, especializada em sistemas navais autônomos. A embarcação está prevista para ser entregue até o final de 2025, equipada com sensores de navegação, sonar multifeixe e capacidade de operar veículos remotamente controlados (ROVs).
Esse investimento representa um passo significativo na modernização da Marinha do Brasil, alinhando-se às tendências globais de adoção de sistemas autônomos e não tripulados para operações navais.
Conclusão: Uma oportunidade para a indústria de defesa brasileira?
A introdução da lógica marsupial nas plataformas navais não tripuladas representa uma janela estratégica para a Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS). Tanto startups quanto empresas já consolidadas podem explorar nichos como:
- Desenvolvimento de drones subordinados adaptados ao ambiente marítimo;
- Sistemas de comando e controle distribuídos;
- Algoritmos de coordenação autônoma (swarming); e
- Integração modular de sensores e armas inteligentes.
Com a crescente digitalização das Forças Armadas e a necessidade de manter presença em áreas amplas e contestadas do Atlântico Sul, o Brasil tem todos os elementos para se beneficiar de uma estratégia nacional que incorpore capacidades marsupiais em sua doutrina naval e em seus programas tecnológicos.
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