Nos últimos anos, o mercado de private equity (PE) enfrentou um cenário desafiador, marcado por taxas de juros elevadas, instabilidade macroeconômica e dificuldades na captação de recursos. No entanto, dados recentes do relatório Global Private Markets Report 2025, da McKinsey, apontam para uma recuperação gradual, impulsionada pela melhora nas condições de financiamento e pelo retorno do apetite por grandes transações. Este artigo analisa as tendências atuais do setor, os desafios ainda persistentes e as perspectivas para o futuro do private equity.
1. Um Setor Saindo da Neblina
O ano de 2024 trouxe sinais positivos para o private equity, especialmente no que diz respeito à liquidez dos investidores institucionais. Após três anos consecutivos de queda, houve um aumento significativo nas distribuições para os Limited Partners (LPs), superando os aportes de capital pela primeira vez desde 2015. Esse fator é crucial para reequilibrar o setor, pois LPs precisam dessas distribuições para reinvestir em novos fundos.
Além disso, o volume de transações no private equity global cresceu 14%, atingindo US$ 2 trilhões. Esse aumento reflete um maior nível de confiança dos investidores, ainda que a quantidade total de negócios tenha caído, especialmente no segmento de venture capital, que enfrentou uma redução na contagem de negócios pelo terceiro ano consecutivo.
2. A Influência das Taxas de Juros e da Macroeconomia
Entre 2022 e 2023, a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos — um aumento superior a 500 pontos-base — impôs desafios consideráveis ao setor, reduzindo a capacidade de alavancagem e impactando diretamente a viabilidade de novos investimentos. O private equity, acostumado a um ambiente de financiamento barato por quase uma década, teve que se ajustar a uma nova realidade de crédito mais restrito.
Contudo, o relatório da McKinsey indica que as condições de financiamento começaram a melhorar em 2024. Os custos de financiamento de aquisições caíram, enquanto o volume de novos empréstimos para empresas apoiadas por PE quase dobrou. Isso possibilitou a realização de transações a preços mais elevados e aumentou a atratividade de novas oportunidades de investimento.
3. Evolução das Estratégias de Captação de Recursos
Se por um lado as condições de financiamento melhoraram, por outro, a captação de novos fundos continua desafiadora. Em 2024, houve uma queda de 24% na arrecadação de capital para fundos tradicionais, marcando o terceiro ano consecutivo de retração. Entretanto, os General Partners (GPs) têm buscado novas formas de financiamento, explorando:
- Contas gerenciadas separadamente (SMAs)
- Co-investimentos
- Fundos abertos e semi-abertos para investidores de alto patrimônio
Essas estratégias refletem uma mudança estrutural no setor, permitindo que o private equity diversifique suas fontes de capital e reduza sua dependência dos veículos tradicionais de captação.
4. Grandes Transações e Tendências Setoriais
Os grandes negócios voltaram com força em 2024. Transações acima de US$ 500 milhões tiveram um crescimento de 37% em valor e 3% em volume, sendo esse um segmento crucial para os maiores players do mercado. A tendência foi particularmente forte na América do Norte e Europa, regiões onde investidores demonstraram maior confiança na recuperação do setor.
Setorialmente, a tecnologia manteve-se como a área mais atrativa para o private equity, registrando o terceiro maior volume de transações da história. Já o setor de saúde apresentou uma desaceleração, especialmente após os altos investimentos realizados durante a pandemia de COVID-19.
Outro destaque foi o aumento das transações público-privadas (P2P), onde empresas listadas em bolsa foram adquiridas e retiradas do mercado público. Esse modelo de aquisição cresceu 65% na Europa e já representa 11% do valor total das transações globais de PE.
5. O Desafio das Saídas de Investimento (Exits)
O verdadeiro sucesso no private equity não está apenas na aquisição de empresas, mas na capacidade de vendê-las com retornos atrativos. Em 2024, as saídas de investimento aumentaram 7,6%, alcançando US$ 813 bilhões, o terceiro maior valor já registrado. No entanto, os períodos de retenção das empresas nos portfólios dos GPs continuam mais longos que a média histórica, o que pode representar um desafio para a liquidez dos investidores.
O backlog de empresas à espera de saída é o maior dos últimos 20 anos, aumentando a pressão para que os GPs encontrem compradores estratégicos. Nesse cenário, as saídas via IPO continuam difíceis, com uma queda de 7% no valor total das ofertas públicas e 20% na quantidade de operações.
6. A Necessidade de Criar Valor no Longo Prazo
Diante do cenário de juros elevados e múltiplos de aquisição mais altos, o foco do private equity precisa estar cada vez mais na criação de valor operacional. Tradicionalmente, os retornos do setor foram impulsionados pela expansão de múltiplos e alavancagem financeira, mas esse modelo se tornou menos viável. Agora, os GPs precisam priorizar:
- Crescimento orgânico das empresas adquiridas
- Melhoria da eficiência operacional
- Aprimoramento da governança e da gestão financeira
A McKinsey destaca que a adoção de inteligência artificial e ciência de dados se tornou um diferencial competitivo para os fundos de PE, ajudando a otimizar processos e criar valor em larga escala.
7. Perspectivas para o Futuro
Apesar dos desafios remanescentes, o private equity está se ajustando a uma nova era. Entre os principais fatores que devem influenciar o setor nos próximos anos, destacam-se:
- Crescimento contínuo dos fundos de médio porte (entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões)
- Maior participação de investidores individuais no mercado de PE
- Expansão dos modelos de financiamento alternativo
- Consolidação dos grandes players do setor
A indústria de private equity está saindo de um período turbulento mais resiliente e inovadora, com uma estrutura de capital mais diversificada e estratégias de investimento mais sofisticadas.
Conclusão
O setor de private equity vive um momento de transição e adaptação, onde a liquidez está voltando, mas as saídas de investimento ainda representam um desafio. A capacidade dos GPs de criar valor por meio da gestão ativa de portfólio será essencial para garantir retornos sólidos no longo prazo.
A inovação nos modelos de financiamento e a adoção de novas tecnologias, como inteligência artificial e big data, serão diferenciais importantes para os fundos que desejam se destacar no mercado global. O private equity de 2025 será marcado por um equilíbrio entre resiliência, criatividade e eficiência operacional.
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