A Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS) brasileira, como sabemos, desempenha um papel crucial na soberania nacional, no desenvolvimento tecnológico e na geração de empregos altamente qualificados. Contudo, desafios financeiros e a alta dependência de orçamentos públicos limitam o potencial de crescimento e inovação das empresas desse setor. Neste contexto, os fundos de investimento surgem como uma alternativa estratégica, permitindo o acesso a recursos privados e alinhando interesses públicos e privados em prol do fortalecimento da indústria de defesa e segurança nacionais.
Este artigo propõe uma visão provocativa sobre como os fundos de investimento podem ser utilizados como política pública alternativa para dar sustentabilidade e competitividade à BIDS, contribuindo para o desenvolvimento de uma economia de defesa mais robusta e integrada.
A Natureza dos Fundos de Investimento e seu Potencial Estratégico
Em linhas gerais, Fundos de Investimento são veículos (instrumentos) financeiros que permitem a captação de recursos de diversos investidores, no Brasil e no Exterior, para aplicação em ativos estratégicos. Em contextos industriais, eles podem ser direcionados para setores de alta complexidade tecnológica, como o de defesa e segurança.
Nesse sentido, ao se estruturar fundos voltados para a BIDS, é possível atrair investidores interessados não apenas no retorno financeiro, mas também na relevância estratégica de seus aportes. A estruturação desses fundos pode contemplar características específicas, como foco em projetos inovadores, financiamento de startups de defesa e fortalecimento de empresas tradicionais do setor.
Em termos práticos, e a título de exemplo, esses fundos poderiam ser estruturados como Fundos de Investimento em Participações (FIPs) ou Fundos Multimercado, combinando capital público oriundo de uma empresa pública (e.g. EMGEPRON, NAV Brasil, Alada, etc.) e capital privado. O Estado teria um papel de investidor âncora, reduzindo os riscos percebidos por investidores privados e atraindo capital nacional e internacional.
E qual o volume do mercado de FIP no Brasil, por exemplo? De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), os investimentos dos brasileiros em Fundos de Investimento em Participações (FIPs) totalizaram R$ 723 bilhões em janeiro de 2024. Atente-se que, segundo a mesma fonte, mais da metade desse capital é proveniente de investidores não residentes.
O Papel do Estado como Facilitador
Em termos de políticas macroeconômicas, o Estado pode desempenhar um papel fundamental como incentivador e facilitador de políticas públicas, especialmente em setores estratégicos que demandam grande volume de recursos e planejamento de longo prazo. Seja por meio de incentivos fiscais, investimentos diretos e/ou mecanismos regulatórios, o Estado pode reduzir barreiras de entrada para o setor privado, promovendo um ambiente favorável à inovação e ao desenvolvimento econômico.
Além disso, sua atuação pontual e eventual como investidor âncora em projetos de alto impacto, como fundos de investimento direcionados, tem o poder de sinalizar confiança e reduzir a percepção de risco para outros agentes de mercado, com isso atraindo capital nacional e internacional.
Nesse sentido, em termos práticos, o governo brasileiro, por meio de instituições como o BNDES e a Finep, ou por meio de parcerias com agentes privados puros, pode atuar como âncora nesses fundos, reduzindo os riscos iniciais para investidores privados e aumentando sua atratividade. Essa atuação não apenas catalisaria investimentos, mas também alinharia os interesses dos investidores com os objetivos estratégicos do país.
Além disso, e não menos importante, mecanismos de garantias públicas combinados com incentivos e isenções fiscais atraentes podem ser utilizados para impulsionar a criação de fundos focados na BIDS, especialmente em áreas prioritárias como cibernética, inteligência artificial e tecnologia espacial, entre tantos outros.
Casos de Sucesso Internacional? Existem!
Países como os Estados Unidos e Israel demonstraram como fundos de investimento podem ser ferramentas eficazes para o fortalecimento de suas indústrias de defesa. Nos EUA, a iniciativa inovadora do Defense Innovation Unit (DIU) colabora com o setor privado para financiar tecnologias disruptivas. Sua equipe de especialistas, trabalhando em sete setores críticos pré-definidos de tecnologia, se envolve diretamente no ecossistema de capital de risco e inovação tecnológica norte-americano.
O fundo israelense Yozma, por sua vez, é um modelo de como o investimento público pode atrair capital privado para setores estratégicos, fornecendo apoio governamental às startups de defesa . Muitos consideram que essa abordagem foi decisiva para consolidar a posição israelense de liderança tecnológica global.
Estes exemplos evidenciam que, com estratégias bem definidas e apoio do poder público, fundos de investimento podem transformar desafios financeiros em oportunidades de crescimento para diversos setores, inclusive o de defesa e segurança.
BIDS no Brasil: Oportunidades e Desafios
O potencial da BIDS brasileira é inegável, mas é igualmente inegável que o setor ainda enfrenta desafios, como acesso limitado a financiamento e falta de integração entre empresas e governos. Vale lembrar que os segmentos existentes no mercado de defesa e segurança são vários e alguns são restritivos ao mercado financeiro, sobretudo por questões de riscos de imagem.
De todo modo, em sua maioria, a criação de fundos específicos para a BIDS poderia trazer impactos significativos, entre os quais:
- Estímulo à inovação tecnológica: essa abordagem como política pública poderia financiar inúmeros projetos em áreas cruciais como robótica, IA, computação quântica e sistemas espaciais.
- Geração de empregos qualificados: dado o fato de que a área de defesa e segurança estão sempre atuando no “estado da arte”, isso exegiria uma sensível expansão da demanda por profissionais especializados.
- Expansão do mercado externo: Impulsionar a exportação de produtos de defesa e segurança, incluindo dualidades em sua utilização, reduziria sua dependência de orçamentos públicos (federal, estaduais e municipal).
Como se observa, os impactos sociais e econômicos da criação de fundos para a BIDS seriam expressivos. Aumento na geração de empregos qualificados, maior exportação de produtos de defesa e segurança, e estímulo à pesquisa e desenvolvimento (P&D) seriam apenas algumas das consequências positivas.
Além disso, a integração de novas tecnologias desenvolvidas por empresas da BIDS em outros setores, como saúde, energia e transporte, ampliaria os benefícios desses investimentos para a sociedade como um todo.
Tokenização e Inovação no Financiamento: mais uma possibilidade?
A tokenização de ativos pode ser uma inovação essencial para democratizar o acesso aos fundos de investimento na BIDS. Com essa tecnologia, seria possível emitir tokens digitais representativos de participações em projetos ou empresas do setor, aumentando a liquidez e atraindo um número maior de investidores, inclusive de pequeno porte.
Essa abordagem transforma ativos tradicionalmente ilíquidos, como equipamentos de defesa ou infraestruturas industriais, em unidades digitais de fácil negociação, aumentando a liquidez e a atratividade dos fundos.
Além disso, a tokenização traz maior transparência e eficiência às operações, uma vez que os registros em blockchain garantem rastreabilidade e confiança nas transações. No contexto da BIDS, isso poderia atrair não apenas investidores domésticos, mas também internacionais, interessados em projetos de alto impacto estratégico. Essa democratização do acesso também impulsionaria a diversificação das fontes de financiamento, reduzindo, novamente, a dependência de recursos públicos e fortalecendo a resiliência financeira do setor.
Resililência Econômica, Tecnológica e Geopolítica?
Os fundos de investimento focados na Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS) têm o potencial de acelerar o desenvolvimento tecnológico ao canalizar recursos para pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D) em setores críticos. Tecnologias disruptivas, como inteligência artificial, robótica e materiais avançados, são essenciais para modernizar as capacidades de defesa e segurança, mas frequentemente requerem investimentos elevados e de longo prazo. Com esses fundos, empresas da BIDS teriam acesso a capital necessário para realizar experimentos, testar protótipos e implementar soluções tecnológicas que colocariam o Brasil na vanguarda de setores estratégicos. Essa inovação não apenas fortaleceria a defesa nacional, mas também poderia beneficiar outros setores econômicos ao gerar produtos e serviços com aplicações civis.
Ao reduzir a dependência de importações de equipamentos e tecnologias estratégicas, os fundos de investimento para a BIDS contribuiriam diretamente para a soberania nacional. Atualmente, muitos países controlam rigorosamente as exportações de tecnologias de defesa, dificultando o acesso a insumos e sistemas essenciais. Investindo no fortalecimento de uma base industrial nacional, o Brasil poderia não apenas atender suas próprias necessidades, mas também se posicionar como um fornecedor confiável para mercados globais, especialmente em regiões em desenvolvimento que buscam alternativas a fornecedores tradicionais. Isso diversificaria as fontes de receita do país e aumentaria sua relevância geopolítica.
Além disso, uma BIDS sólida financiada por fundos de investimento proporcionaria ao Brasil maior autonomia em cenários geopolíticos desafiadores. Em tempos de instabilidade global ou conflitos regionais, a capacidade de produzir internamente os equipamentos e sistemas necessários é fundamental para a segurança e a estabilidade do país. Esses fundos fortaleceriam a resiliência da cadeia produtiva de defesa, garantindo que o Brasil não fique à mercê de restrições externas. Paralelamente, ao se tornar um exportador relevante de produtos e serviços de defesa, o país reforçaria sua influência diplomática, promovendo parcerias estratégicas e consolidando sua posição como um ator relevante no cenário internacional.
Conclusão
A criação de fundos de investimento voltados para a BIDS não é apenas uma solução financeira, mas também uma estratégia de política pública que pode transformar o setor em um dos pilares da economia brasileira. Ao alinhar interesses públicos e privados, o Brasil pode garantir a sustentabilidade e competitividade de sua indústria de defesa, consolidando sua posição no cenário global.
Para que isso se concretize, é essencial um roadmap claro, com participação ativa do governo, do setor privado e de instituições financeiras. O futuro da BIDS depende de ações estratégicas hoje, e os fundos de investimento podem ser a chave para esse desenvolvimento.
Descubra mais sobre InvestDefesa.org
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

