O aumento dos gastos militares na Europa, impulsionado por tensões geopolíticas recentes, tem beneficiado significativamente as pequenas e médias empresas (PMEs) familiares do setor de defesa na Itália. Segundo matéria da DefenseNews, essas empresas, embora representem apenas 15,6% do faturamento do setor de defesa italiano, demonstraram notável desempenho financeiro. Em 2023, apresentaram uma margem EBIT (Lucros antes de Juros e Impostos) de 12,2%, quase o dobro da média nacional de 6,2%.
Um exemplo destacado, segundo a mesma matéria, é a DEAS – Difesa e Analisi Sistemi, uma pequena empresa de cibersegurança que alcançou uma margem de 54%. Outro caso é a GEM Elettronica, especializada em eletrônica naval, que registrou uma margem de 44,5% antes de ser adquirida pela gigante Leonardo em setembro de 2024.
Essas PMEs familiares se destacam por estruturas operacionais mais enxutas e flexíveis, permitindo maior adaptabilidade e crescimento. Em 2023, registraram um crescimento de 29,2%, superando empresas estatais e estrangeiras no mercado italiano. Além disso, ao integrarem a cadeia de suprimentos de grandes empresas, proporcionam a estas maior flexibilidade operacional. Em contrapartida, as grandes corporações auxiliam as PMEs na obtenção de financiamentos bancários, criando uma relação simbiótica benéfica para o setor.
O setor de defesa italiano é composto por 100 principais empresas, das quais 36 são de propriedade estrangeira, representando 25,1% do faturamento do setor. As grandes empresas estatais, como Leonardo e Fincantieri, contribuem com 59,3% do faturamento total. Em 2023, o faturamento totalizou €40,7 bilhões, com aproximadamente €20 bilhões provenientes de contratos de defesa, um aumento de 6,6% em relação a 2022. O setor emprega 181.000 pessoas, sendo 54.000 dedicadas exclusivamente a atividades de defesa.
No comércio internacional, a Itália emitiu licenças para importação de armas totalizando €1,25 bilhão em 2023, com 40,5% provenientes dos Estados Unidos. As licenças de exportação atingiram €6 bilhões, tendo como principais destinos França (€465,4 milhões), Ucrânia (€417 milhões) e Estados Unidos (€390 milhões).
Enfim, do que se observa, o cenário atual de aumento dos investimentos em defesa na Europa tem proporcionado às PMEs familiares italianas oportunidades significativas de crescimento e lucratividade, reforçando sua posição no mercado e contribuindo para a economia nacional.
Lições para o Brasil: as de sempre…
1. Incentivo às PMEs no setor de defesa
Na Itália, as pequenas e médias empresas (PMEs) familiares demonstraram notável capacidade de adaptação e crescimento graças à sua estrutura organizacional enxuta e flexível. Essas empresas destacaram-se em áreas de alta tecnologia, como cibersegurança e eletrônica naval, conseguindo margens de lucro impressionantes. No Brasil, pode-se replicar esse sucesso incentivando startups de defesa por meio de incubadoras e aceleradoras voltadas para tecnologias estratégicas, como inteligência artificial, cibersegurança e sensores avançados. Além disso, é essencial criar clusters tecnológicos próximos a centros de excelência, como existente na região do ITA/DCTA, permitindo uma maior interação entre PMEs e grandes empresas, o que facilitaria a inovação e a produção de soluções competitivas.
2. Integração com grandes empresas
O modelo italiano destaca a integração das PMEs às cadeias de suprimentos de grandes empresas estatais, que desempenham um papel crucial ao facilitar o acesso a financiamentos e garantir mercados para seus produtos. No contexto brasileiro, pode-se ampliar a colaboração entre PMEs e empresas estratégicas de defesa (EEDs), como Embraer, Avibras e Ares. Isso seria viabilizado por meio de incentivos fiscais para projetos de co-desenvolvimento, promovendo um crescimento conjunto. Adicionalmente, facilitar a criação de consórcios de PMEs para responder a licitações públicas e internacionais pode aumentar sua competitividade e abrir novas oportunidades de mercado.
3. Investimento em inovação e exportação
A inovação foi uma marca registrada das PMEs italianas de defesa, permitindo-lhes criar produtos de alta tecnologia que se destacaram no mercado internacional. No Brasil, a criação de fundos específicos para inovação em defesa, como os que estão sendo estruturados no DefenseBank, seria um passo importante para apoiar projetos que possam competir globalmente. Em paralelo, é necessário fortalecer a diplomacia de defesa, ampliando acordos bilaterais e multilaterais para facilitar a exportação de produtos brasileiros, especialmente para mercados estratégicos já mapeados, como os países árabes e europeus.
4. Estruturas de financiamento
O acesso ao crédito é outro fator crítico que contribuiu para o sucesso das PMEs italianas, muitas vezes viabilizado por sua relação simbiótica com grandes empresas. No Brasil, o uso de fundos de investimento setoriais, como aqueles dedicados ao setor de defesa, pode fortalecer tanto PMEs quanto grandes projetos estratégicos. Além disso, linhas de crédito específicas com garantias do BNDES ou do Ministério da Defesa podem ser criadas para alavancar o desenvolvimento de pequenas e médias empresas, promovendo um crescimento sustentável no setor.
5. Estratégia de nicho e especialização
As PMEs italianas prosperaram ao se especializarem em nichos de alta tecnologia, como cibersegurança e eletrônica naval, atendendo a demandas específicas do mercado de defesa. O Brasil pode seguir esse exemplo identificando áreas estratégicas onde o país possui ou pode desenvolver vantagens competitivas, como satélites de baixa órbita, radares de alta precisão e veículos não tripulados. Programas de capacitação específicos para mão de obra, realizados em parceria com universidades e ICTs militares, seriam essenciais para desenvolver esses nichos.
6. Foco na internacionalização
Outro pilar do sucesso italiano foi a forte presença no comércio internacional, com o governo desempenhando um papel ativo no apoio à exportação. No Brasil, iniciativas como missões comerciais e feiras internacionais podem ser ampliadas para promover os produtos de defesa nacionais. Além disso, a implementação de incentivos fiscais voltados para produtos exportáveis pode tornar os bens de defesa brasileiros mais competitivos no mercado internacional.
Diante do exposto, percebe-se que o modelo italiano de sucesso no setor de defesa demonstra que um ecossistema diversificado, integrado e inovador pode ser altamente lucrativo e estratégico para o desenvolvimento de uma nação. No Brasil, essas práticas podem ser replicadas com um planejamento adequado, integrando grandes empresas e PMEs, incentivando a inovação e promovendo a internacionalização. Com políticas públicas bem estruturadas e uma visão estratégica para o setor, o Brasil tem a oportunidade de transformar sua indústria de defesa em um motor de crescimento econômico e tecnológico.
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