A origem do conceito de “net-zero emissions” (emissões líquidas zero) está intrinsecamente ligada à crescente conscientização global sobre as mudanças climáticas e a necessidade de ações ambientais sustentáveis.
Este conceito ganhou destaque com os esforços internacionais para combater tais mudanças, especialmente após a adoção do Acordo de Paris, em 2015, que estabeleceu metas ambiciosas para limitar o aquecimento global.
Desde então, a meta de net-zero tem sido um ponto focal nas políticas climáticas globais, com governos e organizações internacionais, como a ONU, liderando esses esforços.
Mas o que é “net-zero emissions“?
A ideia do “net-zero emissions”, ou “zero líquido de emissões”, surgiu a partir de pesquisas conduzidas no final dos anos 2000 sobre como a atmosfera, os oceanos e o ciclo do carbono estavam reagindo às emissões de CO2. Estas pesquisas chegaram a uma conclusão, ainda disputada, de que o aquecimento global só irá parar se as emissões de CO2 forem reduzidas a um “zero líquido”.
Assim, o conceito de “net zero emissions” refere-se ao equilíbrio entre a quantidade de gases de efeito estufa emitidos na atmosfera e a quantidade removida dela, alcançando, então, uma emissão líquida igual a zero.
Isso geralmente é feito através de uma combinação de redução de emissões e compensação ou remoção de CO2 do ambiente, viabilizadas, dentre outras formas, com ações como o reflorestamento e/ou o uso de tecnologias de captura de carbono.
“Pegada de carbono”: todos temos
A chamada “pegada de carbono” é uma medida que calcula a quantidade de gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO2), liberada na atmosfera devido às atividades humanas. Em outras palavras, é uma forma de medir o impacto que nossas ações têm no aquecimento global.
Qualquer atividade que envolva a queima de combustíveis fósseis, como usar um carro, ligar luzes ou até mesmo comer alimentos produzidos com agricultura intensiva, contribui para a emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, para a pegada de carbono.
Esse conceito é, de alguma forma, relevante porque nos ajuda a identificar as áreas em que podemos reduzir nossas emissões, seja através da escolha de fontes de energia renováveis ou, ainda, da redução do consumo de energia.
Mas como as fintechs se relacionariam com emissões de carbono?
De forma extremamente simplificada, podemos olhar para as fintechs, assim como para qualquer empresa, como uma entidade que trabalha em três grandes fases: obtenção de dados de entrada (inputs), processamento desses dados e, por fim, emissão de resultados (outputs) sob as mais diversas formas, para as mais diversas finalidades.
Nesse sentido, é fácil perceber que, para que essas fases sejam levadas a termo, elas dependem de diversos insumos, os quais, efetivamente, guardam profunda relação com as emissões de carbono, direta ou indiretamente.
Assim, para uma fintech típica, considerando as três fases de operação (entrada, processamento e saída), os principais insumos e seus impactos na questão do net-zero seriam:
- Fase de Entrada: Insumos principais incluem dados de clientes, energia para alimentar sistemas, e recursos humanos. Todos esses, cada um a seu modo, têm, obviamente, uma “pegada de carbono” específica. Particularmente o uso intensivo de dados requer servidores e centros de dados poderosos, os quais podem ser grandes consumidores de energia, impactando diretamente as metas de net-zero.
- Fase de Processamento: Nesta fase, os insumos são principalmente computacionais, como o processamento de dados em servidores e nuvem. A eficiência energética e a origem da energia (renovável ou não) usada nesses processos são críticos para o impacto ambiental das fintechs.
- Fase de Saída: os outputs são principalmente serviços digitais, cujos insumos incluem a manutenção de plataformas online e a comunicação com clientes. Embora menos intensivos em energia do que as outras fases, a hospedagem de plataformas online e a eficiência dos sistemas de comunicação ainda têm um papel importante na pegada de carbono das fintechs.
Como se pode observar, em cada fase, o uso eficiente de recursos e a escolha de fontes de energia sustentáveis são essenciais para minimizar o impacto ambiental e contribuir para as metas de net-zero.
Fintechs, projetos suportados e o net-zero
Para além das fases acima mencionadas, há que se ponderar, nesse contexto, sobre os projetos que são suportados pelas fintechs. Certamente, esse leque de clientes é muito amplo e o impacto de políticas net-zero poderá ser bastante significativo.
Dadas suas envolventes e os requisitos que aplicam em suas avaliações, as fintechs estão em uma posição única para fomentar a inovação em sustentabilidade através dos projetos que financiam. Isto pode incluir o suporte a startups de energia renovável, empresas de tecnologia verde e iniciativas de desenvolvimento sustentável.
Ao fazer isso, as fintechs não apenas podem contribuir para a redução das emissões de carbono, mas também estimular a economia verde e promover novas tecnologias e modelos de negócios sustentáveis.
Potenciais impactos negativos da net-zero sobre as fintechs
Enquanto a necessidade de práticas sustentáveis e redução das emissões de gases de efeito estufa se torna cada vez mais premente, fintechs de todos os tamanhos estão sob pressão para adaptar suas operações e estratégias de negócios.
Esta pressão não se resume apenas à conformidade com novas regulamentações ambientais, mas estende-se à necessidade de atender às expectativas de investidores e clientes cada vez mais conscientes do clima, em que pese com intensidades bem distintas.
A verdade é que a transição para práticas de net-zero pode impor desafios financeiros e operacionais significativos. Isso inclui o alto custo de implementação de tecnologias sustentáveis, a complexidade de integrar essas práticas em sistemas e operações existentes e a potencial redução na margem de lucro devido a essas mudanças.
Além disso, a transição para o net-zero pode desviar recursos de outras áreas críticas de inovação e crescimento, impactando a competitividade das fintechs no mercado. Aquelas menores ou em estágio inicial podem achar particularmente desafiador competir em um mercado que exige investimentos constantes em sustentabilidade, ao mesmo tempo em que se esforçam para inovar e escalar suas operações.
Diante desse cenário complexo, pode-se antever 10 razões pelas quais o conceito de net-zero pode impactar negativamente o desenvolvimento de novas fintechs e a sustentabilidade financeira das existentes:
- Custos Elevados de Implementação: Tecnologias verdes e processos sustentáveis podem exigir investimentos significativos, o que pode ser desafiador para startups e fintechs com recursos limitados.
- Complexidade Regulatória: A conformidade com regulamentações ambientais e de sustentabilidade pode ser complexa e onerosa, especialmente para fintechs que estão ainda estabelecendo suas operações.
- Foco Desviado: Focar em sustentabilidade pode desviar a atenção de atividades centrais de negócios, impactando o crescimento e a inovação.
- Barreiras de Mercado: O cumprimento de padrões de sustentabilidade pode ser uma barreira para entrar em certos mercados, limitando a expansão das fintechs. Isto é particularmente delicado se considerarmos a entrada de fintechs apoiadas por grandes bancos estrangeiros.
- Desafios de Financiamento: Investidores podem ser hesitantes em aportar recursos em fintechs que enfrentam custos adicionais e riscos relacionados à sustentabilidade.
- Limitações Tecnológicas: Adotar tecnologias sustentáveis pode exigir superar limitações técnicas, o que pode ser particularmente desafiador em países em desenvolvimento como o Brasil.
- Concorrência de Mercado: Fintechs focadas em sustentabilidade podem enfrentar forte concorrência de empresas maiores e mais estabelecidas que já estão avançadas na adoção de práticas de net-zero.
- Impacto na Reputação e Relações com Clientes: As fintechs podem enfrentar desafios em equilibrar as expectativas dos clientes com as necessidades de implementação de práticas sustentáveis, o que pode afetar a percepção do público e a lealdade dos clientes, o que refletirá, em última análise, em sua lucratividade e sustentabilidade econômico-financeira.
- Risco de Obsolescência Tecnológica: Com a rápida evolução das tecnologias sustentáveis, as fintechs podem enfrentar o risco de suas soluções se tornarem obsoletas rapidamente, exigindo atualizações frequentes e onerosas.
- Desafios na Cadeia de Suprimentos: A necessidade de fontes sustentáveis e éticas pode complicar seu relacionamento com a cadeia de suprimentos, aumentando os custos e o tempo necessário para o desenvolvimento de produtos e serviços.
Estas razões destacam como as metas de net-zero, embora benéficas para o meio ambiente, podem apresentar desafios significativos para fintechs, especialmente em mercados emergentes como o Brasil, onde o ecossistema de inovação financeira ainda está em crescimento e adaptação.
Breve cenário das fintechs no Brasil
O cenário das fintechs no Brasil em 2023 é marcado por um crescimento robusto e uma presença significativa no mercado financeiro. O setor experimentou um aumento de aproximadamente 30% no capital investido em comparação com 2022, além de um crescimento de 25% no número de startups. Este crescimento tem sido impulsionado por investimentos focados em áreas como pagamentos digitais, tecnologia blockchain e inteligência artificial. O Brasil lidera a América Latina em termos de número de fintechs ativas, com mais de 2.030 empresas operando na região até o final de 2022.
Além disso, o Brasil conta com um número significativo de smartphones ativos, mais de 240 milhões, o que ajuda a ilustrar o potencial dos pagamentos digitais, uma área de grande interesse para a maioria das fintechs.
As fintechs brasileiras conseguiram captar mais de US$ 100 milhões em fundos de venture capital apenas em agosto de 2023. A América Latina, liderada pelo Brasil e pelo México, deve mostrar uma taxa de crescimento anual de receita de 29% até 2030 para o mercado de fintechs.
Em outras palavras, o setor é forte em nosso país e segue crescendo, apesar das dificuldades. Entretanto, num cenário de imposição de net-zero que se avizinha, tal mercado seria bastante afetado, bem como seus inúmeros clientes em todo o Brasil.
Conclusão
Diante de todo o exposto, nota-se que, apesar de necessária, a condição net-zero apresenta desafios bastante significativos ao setor de fintechs no país, seja pelos custos inerentes a sua implementação, seja pelo impacto em sua cadeia de suprimentos, seja pela óbvia diminuição no número de projetos (ou seja, clientes) que poderão ser alcançados pelas suas atividades mais usuais.
Este artigo não pretende, de forma alguma, se opor à política de emissões zero, mas, sim, alertar que haverá impactos que, se não forem tratados com a devida antecedência e competência, irão gerar desemprego, desbancarização maciça e perda de ativos em volume significativo.
Sejamos todos, então, prudentes e estratégicos para apoiarmos esse setor tão importante para nosso país.
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